A embaixadora não residente de Portugal no Líbano terminou esta quinta-feira uma visita de três dias a Beirute com a sensação de que a comunidade portuguesa está cansada e com dificuldades acumuladas, mas tem expectativas de mudança.

“Há aqui (em Beirute) dificuldades acumuladas há largos meses. As pessoas, mesmo para fazerem pagamentos de atos consulares, têm imensas dificuldades, porque não conseguem fazer pagamentos online, e o acesso a [cartões de crédito] ‘visas’ é muito complicado e, portanto, devo dizer que é com alguma ansiedade que me vou embora”, afirmou Manuela Bairos, em declarações à Lusa.

Segundo a diplomata, as explosões de 4 de agosto, no porto da capital libanesa, foram “uma gota de água muito grande” num conjunto de dificuldades que já eram sentidas há muito tempo.

“O Líbano tem vivido uma crise política, social e agora sanitária, com a Covid-19”, lembrou Manuela Bairros, recordando que, “pelo menos desde outubro, manifestantes começaram a reclamar um outro tipo de sistema para viver”.

As explosões, que destruíram a cidade e já levaram à demissão do governo, também fizeram nascer uma semente de esperança na mudança de sistema, considerou.

“A explosão foi de uma violência que eu, se não visse, não conseguia perceber”, contou Manuela Bairros depois de uma visita à zona afetada e circundante que, segundo admitiu, a deixou surpreendida por o número de mortos não ter ascendido a milhares.

Oficialmente causadas por um incêndio num depósito no porto onde se encontravam armazenadas cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio, as explosões provocaram pelo menos 171 mortos, 6.000 feridos, 300.000 desalojados e dezenas de desaparecidos, não havendo informações de cidadãos portugueses ou luso-libaneses feridos.

Apesar disso, a embaixadora não residente chegou na segunda-feira a Beirute para uma missão de apoio à comunidade portuguesa no Líbano.

“Chegaram-nos muitos pedidos e ecos de (portugueses que) precisavam de documentação para, eventualmente, poder sair de Beirute. Mas recebi muitos que só queriam dar conta das suas preocupações, que são muitas e acumuladas”, contou a diplomata.

A pandemia da Covid-19 “agravou ainda mais a nossa capacidade de ação porque há imensas restrições – as quarentenas, os testes e imensas dificuldades de circulação” -, adiantou a diplomata, admitindo que é difícil ajudar até porque a estrutura diplomática é pequena.

No entanto, Manuela Bairos acredita que esta viagem poderá mudar alguma coisa, embora se tenha escusado a adiantar que propostas irá apresentar.

“Acho que há (alguma coisa que Portugal pode fazer), mas tenho de reportar primeiro à minha sede”, disse, acrescentando acreditar que ter visto a situação ao vivo e ter ouvido as preocupações das pessoas lhe dará “mais capacidade de ser persuasiva”.

“Vejo que há aqui muito carinho por Portugal, algumas das pessoas que atendi aqui têm dupla nacionalidade e têm muito apreço pela sua nacionalidade portuguesa. É reconfortante e comovente. Tudo isso levo comigo”, afirmou.

Nos dias em que esteve em Beirute, e apesar de ter tido de ficar em isolamento até poder mostrar um resultado negativo do teste à infeção da Covid-19, Manuela Bairos atendeu “entre 30 e 40 pessoas para atos consulares”, sobretudo pessoas que ficaram sem documentos devido à explosão e destruição consequente.

“A comunidade (portuguesa) está ansiosa, mas, ao mesmo tempo, na expectativa de que este acontecimento desencadeie alguma capacidade da comunidade internacional de apoiar uma solução diferente para o sistema”, afirmou, explicando que as pessoas querem um Estado mais forte, que as proteja.

“Este momento de cataclismo poderá desencadear uma nova abordagem a muitas coisas aqui no Líbano”, concluiu.