“Gosto muito de ser enólogo, mas também gosto muito de perceber como é que a videira trabalha e longe de mim sabê-lo. Isto é um negócio a céu aberto, um negócio sem telhado.” Antes da quarentena, e antes da pandemia ser declarada, Márcio Lopes encontrou-se com o Observador no lobby de um hotel, no Porto, para em menos de uma hora resumir dez anos de projeto. Aos 37 anos, Lopes é o produtor dos vinhos Proibido e Pequenos Rebentos, entre outras referências, e o enólogo que em fevereiro foi duplamente premiado por publicações concorrentes — a Revista de Vinhos – A Essência do Vinho atribuiu-lhe o prémio “Enólogo Revelação do Ano” 2019 e a Vinho – Grandes Escolhas reconheceu-lhe a “Singularidade” em 2019.

O contacto com a agricultura (e, de certa forma, com o vinho) foi empréstimo vitalício dos avós moleiros, que além dos campos de milho faziam vinho para consumo próprio. Em pequeno, Márcio — filho de mãe costureira e pai vendedor — chegou a participar na pisa das uvas dos vinhos verdes que os avós faziam para consumo próprio. Visitá-los, em Paredes, era uma realidade frequente. “Adorava aqueles sábados à tarde depois do almoço. Havia uns moinhos… a água passava por baixo. Na altura não dava valor ao que tinha, hoje a pessoa vive tão rápido… As pás a levar com a água, aquilo gera um barulho muito intenso… é espetacular, depois o cheiro a farinha… “, recorda. A essa imagem cola-se uma outra: o bagacinho com mel que a avó bebia para acompanhar as castanhas que comiam à lareira.

A propriedade dos avós permanece na família, ainda que votada a um certo abandono. Mas Márcio Lopes gosta de pensar que foi ali que tudo começou, quando em dias de festa a avó fazia broa, assados no forno e servia nos copos um vinho do Porto muito velho. “Fui percebendo como aquilo funcionava. Cheguei a ir com os meus avós comprar esses vinhos aos lavradores, essas coisas antigas que só se abriam em dias de festa. Era vinho fino, vinho tratado, não necessariamente com marca. Havia muito e ainda hoje se faz.” Foi talvez por isso que a Mário ocorreu primeiro a ideia de ser produtor de vinhos do Porto, mal sabia ele que, na sequência do curso de Agronomia, iria participar numa vindima com o já então afamado enólogo Anselmo Mendes e deixar-se apaixonar também pelos vinhos verdes.

“Uma pessoa pensa que sai da faculdade a saber tudo”, diz Márcio, que recorda as mangueiras que carregou aos ombros e as caixas que acartou. O produtor ajudou em todos os processos da vindima de 2005, altura em que ficou a dormir na casa de Anselmo Mendes. “Ele agora tem uma adega muito grande e a casa é usada para receber pessoas. A sala da casa dele era a antiga adega. É impressionante ver a sala tão pequena e imaginar que ali se faziam 50 ou 60 mil litros de vinho.”

Para a memória fica o monocasta Alvarinho que ajudou a vindimar. Um tipo de vinho só por si “especial”. “Lembro-me de, talvez há uns 25 anos, os meus avós terem um vizinho que, de vez em quando, trazia garrafas e lembro-me de ouvir as histórias dele: dizia que fechava os negócios com Alvarinho.” Nos anos 80, continua, não havia muitas marcas de Alvarinho, mas este já era considerado um “vinho nobre”. Cerca de 15 anos volvidos, tem apenas uma garrafa dessa colheita de 2005. “O Anselmo deve ter mais.”

© Carlos Figueiredo

A vindima com Anselmo foi crucial para passar a apostar nos vinhos verdes assim que regressou da Austrália, onde fez duas vindimas — em Rutherglen e na Ilha da Tasmânia. É em 2010 que começa a produzir os próprios vinhos, a começar pelos Pequenos Rebentos, nos Vinhos Verdes, e Proibido, no Douro Superior. Se o primeiro é descrito como um “Alvarinho à moda antiga, com algum carácter oxidativo”, o outro é um tinto de Foz Côa que deve o nome ao homem que fez a vida no contrabando.

“Quando voltei da Austrália comecei a namorar uma vinha que existe em Foz Côa, no Pocinho. Era uma vinha bastante velha, mas achava que dali podia sair alguma coisa. Andei dois anos assim, a namorá-la. O senhor não queria vender. Vendia as uvas à cooperativa”. Era uma pessoa típica de Trás-os-Montes, descreve. Dura e fechada. Márcio acabaria por fechar negócio algum tempo depois e isso permitiu-lhe ficar a conhecer a história daquele viticultor: estando ele numa zona raiana, vivera toda a vida do contrabando, trazia o bacalhau para Portugal, mas também o tabaco e o café, e mandava para fora o azeite. Fê-lo durante muitos anos.

O vinho Proibido serve-lhe de homenagem, ainda que no ano seguinte a vinha tenha ficado ao abandono. As colheitas de 2011 e 2012 são feitas com outras vinhas velhas que Márcio tratou e comprou. Atualmente, o produtor conta com as uvas de 30 produtores na região dos Vinhos Verdes e no Douro. Sua é a Quinta do Pombal, em Foz Côa, adquirida em 2015. Na propriedade nasce o Proibido Vinha Velha de Pombal — a primeira colheita foi lançada em 2017. “É o nosso topo. São 800 garrafas de uma coisa muito especial.”

Mas onde há um Proibido, há também um Permitido, cuja primeira colheita viu a luz do dia em 2013 e é oriunda de uma vinha de Rabigato, a praticamente 700 metros de altitude. “No sítio onde está consegue-se ver tudo à sua volta.” No Douro faz ainda os vinhos Anel.

Já na região dos Vinhos Verdes, Márcio trabalha essencialmente com as castas Alvarinho, Loureiro, Avesso e Arinto, nos brancos, e Pedral, Caínho e Doçal, nos tintos. “A vinha de Loureiro mais nova tem 30 anos. Para vinho verde já é um pouco velhota; são vinhas de bardo. Depois temos várias vinhas específicas, porque são minifúndios espalhados, de ramadas que estamos a recuperar entre Melgaço, Ponte de lima e Barcelos”, comenta. Sob o chapéu “Pequenos Rebentos”, os vinhos verdes de Márcio Lopes dividem-se ainda pelos seguintes rótulos: “À moda antiga”, “Selvagem”, “Ancestral” e “Atlântico”.

© Carlos Figueiredo

Foram preciso 10 anos de projeto para que o produtor tivesse a sua própria adega, em Melgaço. Atualmente, produz 80 mil garrafas por ano e exporta para 14 países da Europa, América e Ásia, um cenário que a pandemia de Covid-19 ameaçou sabotar. À semelhança do que aconteceu com a grande maioria dos produtores em Portugal — senão todos — também Márcio Lopes e a equipa foram apanhados de surpresa.

Sensivelmente duas semanas após esta entrevista, o país paralisou. De um momento para o outro, os setores da distribuição e restauração foram profundamente afetados. Numa tentativa de ajudar e de não ser esquecido, o produtor associou-se à Cruz Vermelha para angariar fundos — por cada pack de vinhos que o consumidor comprasse, 10 euros remetiam para esta entidade. “Fechámos essa campanha há cerca de 15 dias. Numa primeira fase vendemos mais de 100 packs”.

Pelo meio, conta, a exportação nunca parou, a qual passou a representar 60% da faturação (mercados como Holanda e Alemanha mostraram-se particularmente interessados nos seus vinhos). E os canais online das garrafeiras também ajudaram às contas. Em maio espera ultrapassar a faturação face ao ano passado, ainda que em março e abril as quebras tenham chegado aos 50%. Mesmo assim, não foi preciso recorrer ao lay off.

Até à quarentena ser decretada, Márcio ia “dormindo aqui e acolá”, dividindo-se por Melgaço, Foz Côa e Ribeira Sacra, em Espanha, onde produz o Telegrafo. Na vindima do passado, por exemplo, fez 20 mil quilómetros em dois meses.

Os vinhos de Márcio não são “naturais” porque levam sulfuroso, explica (à exceção do Pet Nat). Há gosto em usar uvas de baixo rendimento e castas mais difíceis de trabalhar, como o Bastardo, e interesse por vinhas que exigem uma atenção redobrada, como é o caso das ramadas. As fermentações são espontâneas e a intervenção minimalista, mas o produtor não é capaz de dizer que o vinho se faz sozinho. “Tem de haver um acompanhamento, um controlo, uma prova diária”, diz, mesmo que isso implique dormir na adega de tempos a tempos.