Portugal

Colecção da extinta editora Cotovia adquirida pela Livraria Poesia Incompleta

A colecção de Poesia da editora Cotovia, que encerrou em Novembro do ano passado, foi adquirida pela Livraria Poesia Incompleta, em Lisboa, exclusivamente dedicada àquele género literário, anunciou esta quinta-feira em comunicado a editora Fernanda Mira Barros.

No final de Agosto de 2020, Fernanda Mira Barros anunciou o fecho da Cotovia, em pleno período pandémico, uma decisão “ponderada” e “definitiva”, recorda a editora, que seis meses depois permanece aberta apenas por “razões burocráticas”.Uma dessas razões é tratar do “destino a dar a um stock de livros excelentes, não datados, publicados ao longo de 35 anos com dedicação, cuidado e consciência do seu valor para a cultura do país”.

É o caso da colecção de Poesia, uma das quatro colecções emblemáticas da editora — Prosa, Ensaio, Teatro e Poesia — que “foi agora adquirida pela Livraria Poesia Incompleta”, uma livraria “praticamente única no mundo, por ser dedicada inteira e exclusivamente à poesia”.

“Uma coisa tão rara, tão preciosa como a Livraria Poesia Incompleta deveria vir em todos os roteiros de Lisboa e de Portugal, deveria ser uma alegria, um lugar de visita frequente, um assunto de conversa: Como é possível que um só homem, o dono e livreiro da Poesia Incompleta, tenha feito sozinho, e mantenha, num país onde se lê o que sabemos, uma livraria assim?”, considera Fernanda Mira Barros.

A colecção de poesia, iniciada nos anos 1980, inclui traduções de poetas como Paul Celan, Antonio Machado, Jaime Gil de Biedma, Adrienne Rich, Luis Cernuda, Josef Brodsky, Edmond Jabès, Hans Magnus Enzensberger, Francis Ponge e Philip Larkin.

Mas esta colecção é apenas parte do stock da Cotovia, permanecendo desconhecido o destino das restantes colecções e edições.

No início de Dezembro, a companhia de teatro Artistas Unidos, que em parceria com a Cotovia editava os Livrinhos de Teatro, anunciou uma nova parceria com a Livraria Snob, que passou a editá-los.

A editora Livros Cotovia foi fundada em 1988, por André Fernandes Jorge (1945-2016), com seu irmão, o poeta João Miguel Fernandes Jorge, que abandonou o projecto editorial pouco tempo depois.

Ao longo de mais de 30 anos, a editora ultrapassou os 700 títulos, de 350 autores, “todos eles relevantes”, para “um público leitor que sabe o que quer”, como escreve no seu site, e todos eles detentores de uma identidade própria, marcada, na sua maioria, pela imagem gráfica original, desenhada pelo cineasta João Botelho.

Os portugueses A.M. Pires Cabral, Teresa Veiga, Daniel Jonas, Luís Quintais, Paulo José Miranda, Jacinto Lucas Pires, Eduarda Dionísio, Luísa Costa Gomes constam do catálogo da Cotovia, assim como o angolano Ruy Duarte de Carvalho e os brasileiros André Sant'Anna, Bernardo Carvalho, Carlito Azevedo e Marcelo Mirisola, entre muitos outros autores de língua portuguesa dos dois lados do Atlântico.

Martin Amis, Virginia Woolf, Roberto Calasso, Doris Lessing e Natalia Ginzburg estão entre os autores traduzidos ao longo dos anos pela Cotovia, assim como John Milton, Robert Louis Stevenson e Arthur Schnitzler.

“Responsável pela edição, pela primeira vez em língua portuguesa, de vários autores de renome internacional, e também pela descoberta e promoção de alguns autores rapidamente reconhecidos como os ‘novos’ da literatura portuguesa, a Cotovia é ainda uma das raras editoras que em Portugal publicam regularmente textos dramáticos (portugueses e em tradução)”, descreve, na apresentação que a Cotovia mantém no seu site, cujo catálogo continua disponível e é possível ainda comprar livros por encomenda através do e-mail da editora.

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