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Covid-19: é preciso “iniciar já” diálogo sobre certificado de vacinação para viajar, diz o CDC África

O mundo tem que “iniciar desde já um diálogo global” para definir se será necessário um certificado de vacinação para viajar, defendeu nesta quinta-feira o director do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (CDC África). “Seria extremamente perigoso que as pessoas começassem por se vacinar e depois impusessem condições sobre quem pode vir ou ir seja onde for”, alertou John Nkengasong.

“Essa conversa tem que acontecer já, para que estejamos todos no mesmo patamar de entendimento sobre se precisamos ou não de uma vacina para viajar, de um certificado para viajar. Porque isso vai mudar a dinâmica do que fizermos ou deixarmos de fazer para ter acesso à vacina”, disse o responsável, em declarações na conferência de imprensa semanal do CDC África em formato virtual, a partir de Adis Abeba.

Nkengasong deixou um repto aos governos e entidades dos 55 membros da União Africana para “tudo” fazerem para que seja alcançado o objectivo de vacinar 60% das 1,2 mil milhões de pessoas que constituem a população do continente.

“Isso implica que vamos precisar de 1,5 mil milhões de doses de vacinas, se considerarmos que cada indivíduo precisa de duas doses” e o preço estimado para este esforço – compra e distribuição das vacinas - é entre dez e 12 mil milhões de dólares (entre cerca de 8,4 e dez mil milhões de euros), reforçou.

Mas África “está comprometida com esse objectivo” e a preocupação dos africanos é que esse “esforço” não seja “reconhecido”.

“A minha preocupação é que a Europa complete o processo de vacinação e depois sejam impostas restrições. E isto não é hipotético, trabalho em saúde pública há 30 anos e vi como África é negligenciada. Em 1996, os medicamentos anti-HIV estavam disponíveis e demoraram dez anos a chegar a África. Entre 1996 e 2006 morreram 12 milhões de africanos”, afirmou Nkengasong.

Num segundo exemplo, o director do CDC África alertou que, “já este ano”, quando a pandemia estava a perder intensidade na Europa, apenas a quatro países no continente africanos foram oferecidas menos restrições para viajar para o continente europeu.

“Eu já vi estas iniquidades e queremos garantir que as tomadas de posição públicas garantam que África não é deixada para trás”, afirmou.

Outra das preocupações é a eventual futura resistência da população africana às políticas públicas de vacinação. “Temos que assumir a responsabilidade de passar a informação correcta de que as vacinas são seguras, são eficientes, e não dar espaço a que o movimento anti-vacina se instale”, sublinhou Nkengasong.

A abordagem de África “assenta no objectivo” de vacinação de 60% da população. Esse objectivo foi fixado de acordo com critérios científicos, sublinhou o responsável, e é o que “garante a imunização do continente”.

“O pior que nos pode acontecer é termos as vacinas e a população recusar-se a tomá-las, fazendo com que este vírus se instale a longo prazo”, sublinhou Nkengasong.

O responsável congratulou-se com os progressos obtidos no campo das vacinas e a “velocidade com que estão a ser produzidas”, ao longo das últimas duas semanas, em especial a vacina da AstraZaneca, a farmacêutica com sede em Cambridge, que permite condições de armazenamento mais favoráveis, na ordem dos 2ºC a 4ºC, mas tem taxas de eficiência menores, o que pode repercutir-se nos objectivos fixados para vacinação e imunização do continente que necessita de vacinas que exijam temperaturas menos frias.

Porém, disse também Nkengasong, a perspectiva é que as campanhas públicas de vacinação do continente não arranquem antes de “meados do próximo ano”, pelo que o responsável reforçou a necessidade de a população se manter fiel às medidas de saúde pública anunciadas, uso de máscara, higiene e distanciamento social, entre outras.

Em África, há 50.628 mortos confirmados em mais de dois milhões de infectados em 55 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia no continente.

Nos países de língua portuguesa, Angola regista 340 óbitos e 14.821 casos, seguindo-se Moçambique (128 mortos e 15.302 casos), Cabo Verde (104 mortos e 10.400 casos), Guiné Equatorial (85 mortos e 5.146 casos), Guiné-Bissau (43 mortos e 2.422 casos) e São Tomé e Príncipe (17 mortos e 981 casos).

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