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Crianças morrem ao frio no noroeste da Síria após ofensivas do regime de Bashar Al-Assad

“A pior história de horror do século XXI”, como foi definida a tragédia humanitária na Síria pelo vice-secretário das Nações Unidas, Mark Lowcock, continua a ver escritas novas páginas: por causa do frio, só nas últimas semanas morreram no noroeste do país nove crianças. Congeladas.

A história de uma delas é contada ao 'The New York Times' pelo pai. Ahmad Yassin Leila percebeu que a filha, de 18 meses, não se mexia. O corpo alternava entre o quente e o frio. Leila, sem outra alternativa, caminhou com a filha ao colo até ao hospital. Não a tempo de evitar que o congelamento do corpo da criança lhe tirasse a vida. “Eu sonho com estar aquecido”, conta o pai ao diário norte-americano. “Só quero que os meus filhos se sintam aquecidos. Não quero perdê-los para o frio.”

A família Leila faz parte das muitas deslocadas no noroeste da Síria, obrigadas a abandonar as suas casas após a intensificação da ofensiva das forças governamentais em Aleppo e em Idlib. Nos últimos três meses, as tropas do presidente sírio Bashar Al Assad, apoiadas pela força aérea russa, aumentaram a força dos ataques, levando quase um milhão de sírios em direção à fronteira com a Turquia. Desses, perto de metade são crianças. Além dos ataques, o frio é uma ameaça permanente.

Famílias aquecem-se com o que podem: quando falta a madeira, há quem pegue fogo a roupa e sapatos

Famílias aquecem-se com o que podem: quando falta a madeira, há quem pegue fogo a roupa e sapatos

KHALIL ASHAWI

Presos entre cidades que podem ser bombardeadas a qualquer momento e zonas rurais perto da Turquia, os deslocados procuram abrigo em prédios alugados ou abandonados, alguns sem portas ou janelas. O caso da família Leila cabe nesta categoria: vive num abrigo de cimento, só parcialmente coberto. A maioria dos deslocados, porém, não consegue ir tão longe e acaba a dormir em tendas. E há ainda dezenas de milhares de famílias que não têm outra escolha se não a rua, aproveitando o que nela houver para se aquecerem — às vezes cobertores, outras vezes cartões, outras ainda sem nada.

Quem pode pagar, compra combustível para alimentar os aquecedores. Outros queimam madeira e, quando ela falta, pegam fogo à roupa e aos sapatos para se aquecer. Uma família tentou-o, mas acabou por provocar um incêndio na tenda onde vivia, matando dois filhos. “Muitas pessoas estão a morrer aqui”, diz Leila ao 'New York Times'. “Ninguém se importa.”

“Condições de vida absolutamente desumanas”

Organizações como a Save the Children e a UNICEF já alertaram várias vezes para os riscos que correm as crianças no noroeste da Síria, em concreto, na província de Idlib, por causa da ofensiva do regime sírio, apoiado pela Rússia, contra os seus opositores na região. Num comunicado divulgado recentemente (18 de fevereiro), a UNICEF afirmou, aliás, que a violência naquela zona do país obrigou à deslocação de mais de 500 mil crianças nos últimos três meses.

A maioria dessas crianças encontra-se agora a viver com as suas famílias em tendas a céu aberto, em época de frio e chuvas, montadas junto à fronteira com a Turquia. Desde o início de 2020, morreram pelo menos 30 crianças e outras 40 ficaram feridas devido ao aumento da violência na zona, ainda segundo a UNICEF. “A situação no noroeste da Síria é insustentável, mesmo para as padrões sombrios Síria”, afirmou Henrietta Fore, diretora-executiva da organização, dando ainda conta de ataques aos dois últimos hospitais em funcionamento na província de Alepo (num deles havia uma maternidade e noutro um centro de pediatria) onde também ainda existem grupos armados da oposição. “As crianças e as famílias são apanhadas entre a violência, o frio, a falta de comida e condições de vida desesperantes. Este desprezo abjeto pela segurança e bem-estar das crianças e das suas famílias está para lá de todos os limites”, afirmou ainda, numa crítica direta ao regime sírio de Bashar al-Assad.

E o que aconteceu a Iman Leila, a bebé que morreu de frio, aconteceu já a outras sete crianças, segundo números da organização Save the Children. Num comunicado recente, Sonia Khush, diretora da organização não-governamental, chamou a atenção para as baixas temperaturas e para as “péssimas condições de vida” nos campos de deslocados em Idlib. “À medida que mais civis procuram desesperadamente segurança na fronteira da Síria com a Turquia, estamos preocupados que o número de mortos aumente também devido às condições de vida absolutamente desumanas” nesses campos, afirmou a diretora.

Há vários meses que o Governo tenta reconquistar Idlib, onde ainda tem opositores, mas onde vivem também milhões de civis fugidos de outras regiões sírias devastadas pela guerra. Em dezembro, as operações foram reforçadas, com mais apoio da força aérea russa, e as consequências fizeram-se sentir de imediato no terreno. De acordo com o ACNUR, 298 civis foram mortos desde o início do ano e cerca de 900 mil pessoas (incluindo as crianças de que falávamos) foram obrigadas, por causa dos bombardeamentos, a abandonar as suas casas desde dezembro. Trata-se, conforme foi já assinalado, do maior êxodo de pessoas desde o início da guerra na Síria, há nove anos.