Portugal

“Deixem-no entregue à sua sorte”

Ao cuidado de Miguel Sousa Tavares

No Expresso de 20 de Novembro, na peça titulada “Porque não podemos desistir de nos indignarmos”, Miguel Sousa Tavares (​MST) insurge-se contra o apelo ao Governo para socorrer o Montepio, feito por um grupo de associados, aos quais contrapõe, com arrogância: “a solução é evidente e nem merece conversa: deixem-no entregue à sua sorte.” MST preconiza que a inflamada sentença se aplique às 600.000 “excelentes entidades cujas poupanças ficarão a arder”.

Eu sou uma das “excelentes entidades” condenadas por MST, e também eu fiquei indignado e surpreendido com a bujarda populista do reputado opinion maker, a apelar a reacções primárias de quem o lê. No artigo, MST pincelou, suave e difusamente, gestores manhosos, agremiações e personalidades beneficiadas por estes e entidades vigilantes adormecidas, e recorreu a cores fortes para retratar os potenciais lesados sobre os quais descarrega a sua indignação, que justifica com simplificações: é sabido que “há um incêndio a arder em lume brando” há muito no Montepio; tolerado pela maioria dos sócios ao reelegerem os mesmos dirigentes; que deveriam “ter tomado conta das suas poupanças” e “não o fizeram”; pelo que agora aguentem-se e “tenham a decência mínima de não vir pedir a um país exangue e a um Estado forrado de dívidas que pague a sua irresponsabilidade”. Decência, caro Miguel, decência.


MST promove os mutualistas à condição de lorpas, e nem a grandeza do número lhe despertou a curiosidade para compreender o fenómeno da sua concentração na mutualista do Montepio. É pena. Os 600.000 lorpas encontram-se distribuídos por todas as latitudes e longitudes do país. Per capita, a média das poupanças que confiaram à mutualista é inferior a 5000 euros. 280.000 têm mais de 50 anos de idade, dos quais 60.000 acima dos 70 anos. Há ainda 150.000 com menos de 30 anos, pés-de-meia criados por pais ou avós onde acumulam prendas natalícias e de aniversários.

MST é português em Portugal, advogado, jornalista, escritor, caçador, conhece o país envelhecido com baixo nível de literacia, formatado na cultura onde o padre, o presidente da junta e o gerente bancário são pessoas de bem e confiáveis. E, no mercado da confiança, o sólido e antigo Montepio é um campeão. Confiança que, num mundo em mudança, é abusada pelos bancos onde os bancários convertidos em vendedores são controlados por objectivos e forçados, por vezes, a impingir gato por lebre a desconhecidos e conhecidos, se querem ter futuro.

No Montepio, mutualista é um eufemismo que, na maioria das vezes, define um cliente bancário que foi aliciado e subscreveu um produto financeiro mutualista – criados por Tomás Correia (TC) para financiar o grupo e aprovados pelo MTSS com uns miligramas de vantagem e a quem não foi realçado que perdia a garantia bancária. (O Expresso fez um excelente trabalho sobre a venda enganosa das UP’s da CEMG, com jornalistas disfarçados de clientes atendidos em vários balcões).

Para além do já descrito, pela porta adentro das “excelentes entidades” chega a influência das “amizades” que protegem TC quem de direito uma vez mais fechava os olhos”; curiosa aliança entre socialistas, maçons e católicos, para além de gente de todas as proveniências e influências” – referidas por MST, um grande conluio a impedir que a verdade chegue aos incautos. E é para a ocultação da verdade que MST agora também contribui ao afirmar: “E lá deixando homem por si, com o apoio da maioria dos sócios” responsabilizando a massa associativa. É falso!

É público que 90% dos sócios do Montepio não participam nas eleições nem têm qualquer participação na vida associativa. São meros clientes bancários, como já foi referido. Sabe-se ainda que o processo eleitoral no Montepio é viciado e fraudulento e já denunciado em investigação jornalística televisiva. É uma disputa desigual em que David confronta Golias e que, apesar de todas as vantagens, a equipa de TC foi reeleita, apenas, por 41% dos votantes e rejeitada por 59%.

Não se percebe, pois, a razão porque MST, sabendo que TC tem sido suportado pelo sistema lista de ‘notáveis’ que veio a público apoiar a última recandidatura” –, quer transferir a responsabilidade que deriva dessa cumplicidade para as “excelentes entidades”.

Eu também discordo do apelo ao Governo, mas pelas razões opostas às de MST. Discordo porque nada acrescenta em face de posições há muito expressas publicamente e porque é um “apelo” em vez duma “responsabilização” e duma “exigência”. Responsabilizar e exigir porque Governo e Banco de Portugal foram coniventes na transferência ilegal de dois mil milhões de euros da mutualista para o banco, razão primeira do descalabro da mutualista. O Dec. Lei 72/90 que regulou a mutualista até 2018 impunha, taxativamente, limites de prudência que não permitiam, de todo, a concentração do investimento no banco nem o volume investido em acções.

A todos interessou usar a mutualista, primeiro para que o seu banco absorvesse os problemas do Finibanco e, a seguir, para esconderem que, contaminado, também precisava da ajuda do Estado. Tudo se passou com o assobiar consentido de Vieira da Silva ministro da tutela em 11 dos últimos 15 anos –, que meteu a lei na gaveta e fez vista grossa à gestão fora-da-lei de TC. Esta é a responsabilidade que não pode ser esquecida.

Falar do Montepio é falar da corrupção que corrói o país e que se alimenta do esquecimento. MST, esquecido, confunde ovelhas e lobos obscurecendo um dos maiores escândalos políticos nacionais da última década, do qual Governo, Parlamento e Presidente da República fogem a sete pés: o assalto e destruição da mais antiga e maior instituição financeira social portuguesa.
MST esqueceu-se do início do filme, quando Tomás Correia ascendeu à presidência do Montepio, em 2008, tempo de José Sócrates, Ricardo Salgado, José Guilherme, Ongoing, empresários, Angola, futebol, lavagem de dinheiro, orgias de ganância para onde o Montepio foi arrastado.

Espero que MST melhore e deixe de apontar às ovelhas por confiarem nas instituições, nos governantes, nos supervisores e nos auditores, e continue a atirar aos lobos que devoram o país e continuam por aí impunes. Quero acreditar que vai corrigir o tiro.

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