A fé deu lugar à esperança ténue que deu lugar à resignação. De um estado de alma para outro estado de alma até ao encarar da realidade: André Ventura ia mesmo ficar atrás de Ana Gomes. Muito para lá das dez da noite, quando a socialista já estava uns largos votos à frente de Ventura e com o fosso entre os dois a aumentar a cada atualização, a desilusão entre os apoiantes de Ventura era evidente. “Já não para virar, pois não?”, perguntava, cabisbaixa, uma militante do Chega a outro. “Não”, cortava a eito o interlocutor.

Às 23h29, quando Ventura entrou na sala, veio disposto a virar o jogo a seu favor. Num discurso de 12 minutos, usou três para felicitar Marcelo Rebelo de Sousa, comentou os resultados, reconheceu que tinha ficado aquém dos objetivos e prometeu devolver a palavra aos militantes do Chega sobre a sua continuidade à frente do partido. O resto do tempo foi um guia prático de como transformar uma derrota em vitória.

“É uma noite histórica em que a direita se reconfigurou completamente. É uma noite histórica porque, pela primeira vez, um partido demarcadamente antissistema rompeu o espetro da direita tradicional, com cerca de meio milhão de votos, avassaladora força antissistema que não acabou hoje, nem quebrou hoje.” 

O discurso do líder do Chega teve, aliás, vários atos. Mas acabou precisamente como começou. Depois de umas presidenciais em que ficou objetiva e assumidamente abaixo das expectativas, Ventura esforçou-se por repetir à exaustão de que o resultado conseguido este domingo é um momento definidor para o futuro da direita em Portugal.

Percebe-se o objetivo: com PSD e CDS em quebra — horas antes, Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos esforçaram-se por se colar à vitória de Marcelo Rebelo de Sousa e vender a ideia de que André Ventura tinha sofrido uma derrota — Ventura não quis deixar espaço para segundas e terceiras leituras: um resultado desta ordem de grandeza para um líder de um partido que tem apenas dois anos tem de ser considerado como uma revolução.

“Esmagámos a extrema-esquerda em Portugal. Esta candidatura teve mais votos que o PCP de João Ferreira, o Bloco de Esquerda de Marisa Matias e a Iniciativa Liberal de Tiago Mayan.”

Não faltaram, claro, críticas à esquerda. André Ventura deixou várias promessas ao longo dos quinze dias de campanha: forçar uma segunda volta; ficar à frente de Ana Gomes; e, por exemplo, ter mais votos que a esquerda toda junta.

Esta noite, o líder do Chega celebrou o facto de ter conseguido mais votos que Marisa, João Ferreira e Tiago Mayan — aqui incluído no pacote da extrema-esquerda — como uma vitória inolvidável. Voltaria à mesma ideia mais tarde.

Somos firmes naquilo que defendemos. Fiquei aquém dos 15% que devíamos ter, com algumas décimas de diferença da candidata que representa o pior que Portugal tem. Por isso mesmo, não fugirei à minha palavra e devolverei aos militantes a palavra sobre se querem ou não a continuidade deste projeto à frente deste partido.”

Um dos momentos mais aguardados da noite e que Ventura resolveu em poucos segundos: tal como tinha prometido, o candidato do Chega vai mesmo colocar a liderança à disposição e sujeitar-se a eleições internas.

Sabemos bem que este é um projeto vencedor, que é um projeto a olhar para o futuro e como esse futuro ficou mais perto. Humildemente posso olhar para mim e agradecer a Deus por me ter colocado a mim como a voz [deste partido].”

E começou já este domingo a fazer a defesa da sua recandidatura. Apesar de ter sofrido uma derrota difícil de engolir — Ventura disse com todas as letras que Ana Gomes nunca ficaria à sua frente nestas eleições — o líder do Chega apontou para a evolução dos resultados eleitorais desde a fundação do partido — legislativas, Açores e agora Presidenciais — para defender o potencial que a sua liderança representa para o Chega.

Ventura não o disse, mas sugeriu: sem ele à frente do partido, o crescimento do partido pode ser interrompido. Nota de reportagem: o momento em que Ventura disse que ia convocar eleições internas quase não provocou reações entre os militantes presentes. Noutro partido, noutras eleições, qualquer líder que o fizesse ouviria gritos de apoio para continuar ou aplausos de reconhecimento pelo trabalho feito.

Pela amostra da sala, onde estava a cúpula do Chega, Ventura não terá dificuldades em ser reconduzido: apesar do ambiente morno, o líder do partido parece, por esta altura, incontestado.

“Rompemos outra barreira. O mito das terras de esquerda e comunistas. Por todo o território alegadamente de esquerda nem o PCP ficou à nossa frente. O Chega mostrou hoje que esse eleitorado é seu e vai ser seu no processo de transformar Portugal nos próximos anos.”

Um sinal importante sublinhado por André Ventura: de facto, depois das legislativas, o Chega voltou a demonstra uma grande capacidade de penetração eleitoral no Sul do país, em bastiões tradicionalmente de esquerda.

Num ano de eleições autárquicas, vai ser interessante perceber como se comporta este eleitorado quando for chamado a decidir os governos locais. Num cenário de eventuais legislativas antecipadas, em 2022, por exemplo, Ventura vai explorar este flanco.

Não há segunda vias depois desta noite, nem ilusões: não haverá Governo em Portugal sem que o Chega seja parte fundamental desse Governo. Não haverá Governo em Portugal sem nós. Vai derrubar todas as barreiras nas eleições autárquicas e nas eleições legislativas. Não há volta a dar: não haverá Governo sem Chega nos próximos anos. PSD, ouve bem, não haverá Governo em Portugal sem o Chega.” 

E foi esta a forma que Ventura encontrou para transformar a derrota (embora por números impressionantes para um partido tão jovem) numa vitória. Se conseguir repetir ou até insulfar os resultados que teve este domingo em futuras eleições, Ventura conseguirá o que sempre quis nestas presidenciais: lançar a primeira grande pedra do projeto de reconfiguração da direita e do poder em Portugal.

Depois da demonstração de força que deu nestas eleições, o Chega terá de ser encarado como o centro de qualquer solução.  E a pressão passa a estar toda do lado do PSD.