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Exploração espacial tripulada: à beira de uma nova era – ou de um novo revés

Cinquenta anos após a primeira alunagem, e órfã de um destino inspirador e exequível – não sendo Marte exequível no prazo de um ciclo político –, a exploração espacial tripulada continua a atravessar uma crise de identidade. Hoje é possível discernir três grandes tendências de médio-longo prazo que à data de hoje mais parecem uma travessia do deserto: a construção de uma estação orbital lunar Gateway, o mínimo denominador comum dos objectivos das agências mundiais; o desenvolvimento de foguetões pesados por actores privados (com os riscos que tal desenvolvimento acarreta); e a privatização parcial do desenvolvimento de tecnologias-chave indispensáveis à sustentabilidade da exploração tripulada no longo prazo (propulsão eficiente, automação, protecção contra a radiação, sistemas de suporte de vida, uso de recursos locais ou módulos de aterragem).

Dado o peso esmagador da NASA na concretização do Roteiro Global de Exploração (GER), o panorama pode ainda ser ilustrado através de dois aspectos algo contraditórios. Por um lado, o volume gigantesco de investimentos anuais em exploração tripulada (mais de dez mil milhões de dólares por ano, cerca de metade do orçamento da agência), cuja variabilidade com os ciclos políticos condiciona fortemente as contribuições dos restantes parceiros; e por outro, uma taxa de concretização de objectivos quase trágica. O lançador pesado SLS continua no chão após 14 mil milhões de dólares gastos em oito anos, a cápsula Oríon não efectuou voos tripulados após 16 mil milhões gastos em 13 anos; e nenhuma das duas cápsulas em desenvolvimento para o programa Commercial Crew (serviços de transporte tripulado para a Estação Espacial Internacional, de longe o mais promissor e próximo de se concretizar) voou com astronautas, após quase oito mil milhões de dólares gastos em nove anos.

A agência que em tempos demonstrou como transportar a humanidade de um discurso político até à superfície da Lua em sete anos (assente em tecnologias inexistentes à partida) está há oito anos sem capacidade própria de executar voos tripulados, mas diz que quer chegar à Lua nos próximos cinco.

À luz destes factos, a aceleração que a Administração Trump pretende dar à exploração espacial tripulada está desfasada da realidade, e será até contraproducente: no futuro próximo são previsíveis mais bolas de fogo do que sucessos, quer no sentido figurativo (fracasso na concretização prática de tecnologias que são as fundações de um novo ciclo de exploração), quer no sentido literal – no contexto das tentativas de alunagem de empresas do Novo Espaço (New Space) como a Intuitive Machines, a OrbitBeyond e a Astrobotic, ou durante o desenvolvimento de lançadores pesados como o Super Heavy/Starship (da SpaceX) ou o New Glenn (da Blue Origin). E a subsequente mediatização de quaisquer contratempos pode vir a ter custos políticos elevados, para o seu projecto e para a própria Administração.

É uma aposta arriscada, com potenciais ganhos marginais e potenciais perdas significativas. Valerá a pena?

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