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Há sempre mais oportunidades

Apesar de ter jogado râguebi no Cascais quase 10 anos (dos 9 aos 18), nunca fui um grande jogador. Mas era dedicado e ainda fui capitão de equipa durante duas épocas. Nesse dia, o jogo estava a ser muito duro: mau tempo, campo pelado em mau estado, o adversário mais forte e mais pesado que nós. Dois jogadores da nossa equipa saíram lesionados ainda antes do intervalo. O resultado teimava em ficar no 0 a 0 e não víamos hipótese de conseguir pontuar.

A um minuto do final do jogo, o árbitro apita uma irregularidade a nosso favor, ligeiramente à frente da linha de 22 metros do adversário e mesmo em frente dos postes. Festejámos imediatamente a marcação da falta. Tínhamos ali uma oportunidade que dificilmente nos escapava.

O nosso chutador habitual estava de fora, lesionado, por isso o treinador olhou para o campo e não hesitou (ou talvez sim) em escolher-me para assumir essa responsabilidade. Eu tinha estado antes do jogo a preparar-me para esta eventualidade e, apesar de não ser o meu forte, estava pronto e sentia-me confiante.

Esta era talvez a deslocação para fora de Lisboa que mais fazíamos e divertíamo-nos sempre muito, todos juntos, de autocarro para Évora, antecipando um jogo difícil, mas cheios de vontade de passar o dia em equipa a fazer o que gostávamos, sabendo que no regresso iríamos comer as famosas bifanas de Vendas Novas que nos alimentavam depois do jogo.

Eu coloquei a bola com a ajuda da areia do próprio campo, ainda agachado. Olhei para os postes, inclinei e apontei a bola para o centro. Recuei cinco passos e dei dois para o meu lado esquerdo. Na linha de ensaio, estava toda a equipa do CR Évora, com os avançados bem à minha frente a tentarem intimidar-me.

Nessa altura, com 15 ou 16 anos, o râguebi era uma das coisas mais importantes da minha vida. Grande parte dos meus amigos jogavam, treinávamos duas vezes por semana e jogávamos ao sábado ou ao domingo.

Foi aqui que aprendi a trabalhar em equipa, foi no râguebi que percebi que juntos éramos mais fortes. Queríamos sempre ganhar. Nem sempre acontecia, mas continuávamos a tentar. Nos treinos e nos jogos, no campo e fora dele, fiz amigos e reforcei amizades.

Nesses tempos, aprendi alguns dos valores mais importantes que ainda hoje trago comigo: disciplina, respeito e humildade. Aprendi que não se consegue nada sem muito treino e trabalho, mesmo que muitas vezes, cá por fora, nos tentem convencer do contrário.

Nesse jogo em Évora, o árbitro apitou e arranquei para a bola. Tinha nos meus pés a hipótese de resolver o jogo. Bati na bola com toda a força e vi a bola a subir e a afastar-se na direcção dos postes. Estava lá... pensei. Tinha tudo para fazermos os três pontos... Só que não! A bola perdeu altura, bateu na parte de dentro do poste direito e, em seguida, na barra, voltando na minha direcção.

Não tinha conseguido converter, mas a bola estava agora a chegar às minhas mãos e estava a 15 metros da linha de ensaio. Agarrei a bola, cerrei os dentes e corri o mais rápido que pude. Fui travado imediatamente por vários jogadores do CR Évora. O árbitro apitou e empatámos o jogo.

Na semana seguinte, voltámos a ter jogo. Já não me lembro se ganhámos ou se perdemos.

No râguebi, como na vida, cada jogada é uma oportunidade que temos para nos superar. E hoje, sei que só perde quem desiste de lutar.