A melhor imagem para descrever tudo o que se viveu no Parken Stadium a partir do momento em que Christian Eriksen caiu inanimado no relvado é recuperar aquele silêncio sepulcral. Por paradoxal que até possa parecer, foi quase um silêncio que se ouviu. Que se sentiu. Que se viu. Fica como um momento do Europeu, não só pela situação do médio (que se encontra agora completamente estabilizada) mas pelas histórias à sua volta.

Passemos agora ao lado da onda de críticas em torno da realização do encontro, que continuou a filmar o que não era necessário passar – e que bastava apontar para um qualquer setor de uma qualquer bancada para ter o mesmo efeito, tendo em conta o clima gelado que se adensou depois de 40 minutos (mais a antecâmara do jogo) onde se sentiu mais do que nunca um verdadeiro espírito de festa como em mais nenhum palco do Europeu.

A história de Eriksen trouxe a história de Simon Kjaer, rival em Milão (AC Milan-Inter) mas um dos amigos mais próximos que teve um papel preponderante nos primeiros cuidados.

A história de Eriksen trouxe a história de Kasper Schmeichel, que teve o cuidado de dizer logo à namorada do médio que entretanto descera ao relvado que o companheiro estava a respirar.

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A história de Eriksen trouxe a história de uma equipa que se agarrou e rodeou o seu ’10’ para que todos os cuidados fossem prestados longe de qualquer olhar ou câmara indiscreta que não respeitasse o que se passava.

A história de Eriksen trouxe a história de uma massa adepta que se misturava sem problemas na bancadas e que teve ainda menos distinções naquele momento, a ponto de um adepto finlandês ter atirado para aquela zona do relvado a sua bandeira do país por forma a taparem ainda melhor o que estava a ser feito com o médio.

A história de Eriksen trouxe a história até agora não contada dos irmãos Boesen, que quase por obra do acaso se voltaram a cruzar, não no curso de medicina nem nos campos de badminton, para prestar todos os cuidados que foram fundamentais para recuperação do médio entre um estádio bem preparado, todos os equipamentos de suporte básico de vida e desfibrilhador preparados, o Rigshospitalet a menos de cinco minutos do recinto.

“Ele tinha ido e fizemos ressuscitação cardíaca. Foi uma paragem cardíaca. Quão próximos estivemos de outro momento? Não sei. Recuperámo-lo depois de utilizarmos a primeira vez o desfibrilhador. Foi tudo muito rápido. Quando cheguei ao pé dele já estava de lado. Estava a respirar, senti o pulso mas de repente mudou e tivemos de fazer logo reanimação. Estava inconsciente. A ajuda da equipa médica chegou de forma rápida e também de todo o restante staff que esteve a ajudar na operação. Fizemos tudo o que tínhamos de fazer para recuperar o Christian outra vez e ele falou comigo antes de ser conduzido para o hospital”, contou o médico da equipa.

Como explica o The Athletic, Morten Boesen é médico do Copenhaga desde 2004, sendo diretor clínico e trabalhando não só na parte dos tratamentos mas também nas intervenções cirúrgicas. 15 anos depois, em março de 2019, a Federação Dinamarquesa de Futebol recebeu permissão para recrutar o especialista durante os períodos de jogos internacionais e foi ele que acudiu na hora Eriksen após a paragem cardíaca.

A seu lado no trabalho esteve o irmão, que trabalha também no Copenhaga mas na parte da academia. Anders Boesen estava na lista da UEFA para médicos do estádio, uma posição independente que é ocupada por um especialista que se encontra no recinto e que atua em caso de emergência – e foi o escolhido para esse papel no Dinamarca-Finlândia, voltando a fazer dupla com o irmão no trabalho como acontecia nos tempos em que eram atletas de alta competição e campeões no badminton, sendo que Anders chegou a ser o número três do ranking mundial da modalidade antes de ambos se dedicarem apenas à medicina em termos profissionais.

“O dia a dia deles é curar joelhos, não é salvar vidas, mas estão sempre prontos para tudo. O Morten é um médico muito objetivo, sabe naquilo que é bom e fala sobre o que saber. Nunca se deixou levar em especulações em relação à paragem cardíaca na primeira conferência por isso mesmo”, contou uma fonte próxima dos irmãos à publicação, reportando-se à intervenção inicial quando não existiam ainda causas para o sucedido.