O caso adensa-se, sobretudo depois de Juan Carlos, rei emérito de Espanha, ter optado pelo exílio na iminência de consequências legais no âmbito da investigação aos 100 milhões de dólares que recebeu da Arábia Saudita em 2008. Corinna Larsen, ex-amante do monarca, pede o envolvimento de Felipe VI, sob pena de divulgar informação que pode atingir outros membros da família real espanhola.

Da transferência milionária vinda do Médio Oriente à doação inusitada, “sinal de gratidão e amor”, feita quatro anos depois, pelo caminho o dinheiro cruzou-se com outros rostos — diplomatas, advogados, especialistas em segurança incluídos. Ao fim de mais de um ano de troca de correspondência entre Larsen e a Casa Real, divulgada pelo El Mundo, dizemos-lhe quem é quem no caso que está a ameaçar a monarquia do país vizinho.

Rei emérito de Espanha

Ocupou o trono espanhol desde 1975 até 2014, e é a peça central do escândalo financeiro. Em 2008, Juan Carlos, agora com 82 anos, terá recebido 100 milhões de dólares, o equivalente a cerca de 65 milhões de euros (à taxa de câmbio da altura) do Ministério das Finanças saudita. Um “agradecimento” na sequência do possível favorecimento de um consórcio de empresas espanholas no concurso para a construção da linha de alta velocidade que liga as cidades de Meca e Medina. O valor em questão — uma fortuna — nunca foi declarado ao fisco espanhol.

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Quando uma série de gravações de Corinna Larsen começou a ser divulgada, em 2018, o esquema começou a ficar a descoberto. A ex-amante do rei falava então em dois testas-de-ferro, num esquema de lavagem de dinheiro e na passagem de alguns bens para o nome de Álvaro de Orleans Borbón, primo de Juan Carlos.

Os áudios desencadearam novas diligências na investigação levada a cabo pelo Ministério Público espanhol (uma divisão dedicada exclusivamente aos crimes de corrupção) em torno da linha de alta velocidade Haramain. Em junho deste ano, a Procuradora-Geral Dolores Delgado remeteu essas mesmas diligências para o Supremo Tribunal.

Governor of Riyadh, Prince Salman bin Ab

Os reis de Espanha durante a visita à Arábia Saudita, em 2006 © FAHD SHADEED/AFP via Getty Images

Ex-amante do rei de Espanha

A maioria da imprensa espanhola adotou a expressão “amiga íntima” para se referir à relação entre a empresária alemã e o então rei de Espanha. Tudo leva a crer que Corinna foi amante de Juan Carlos durante cerca de oito anos. Em 2012, os cerca de 65 milhões de euros deixaram a conta do banco suíço Mirabaud onde tinham sido depositados em 2008 — em nome da Fundação Lucum, criada a 31 de julho desse mesmo ano, com sede no Panamá e da qual o beneficiário era o próprio monarca, na altura ainda no trono.

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Qual o destino? Uma conta em nome da Solare, empresa associada a Larsen, nas Bahamas. A transferência foi ordenada pelo próprio Juan Carlos, que na altura ainda manteria uma relação amorosa com Corinna. A Procuradoria de Genebra investiga agora se os fundos em questão são provenientes de um ato de corrupção relacionado com o concurso para a construção do comboio árabe.

Desde o arranque da investigação que Corinna tem tentado estabelecer uma negociação com Felipe VI, razão pela qual enviou uma primeira carta ao gabinete do rei em março do ano passado. Nessa mesma carta, assegurava que, à data da abdicação, em 2014, Juan Carlos lhe pediu o dinheiro de volta — o mesmo que, segundo o seu depoimento ao procurador suíço Yves Bertossa, em dezembro de 2019, lhe foi dado como “sinal de gratidão e amor”. Ela não devolveu, o que terá desencadeado uma vaga de assédio por parte do rei emérito. Felipe VI nega-se a conversações e Larsen já ameaçou libertar novas informações que, segundo ela, atingiriam o “coração da Casa Real”.

Advogado de Juan Carlos

É um dos testas-de-ferro mencionado nas cartas e o homem a quem Juan Carlos pediu para criar “uma estrutura” que lhe permitisse receber uma “doação significativa” do rei da Arábia Saudita. Graças ao engenho do advogado suíço (a par com Arturo Fasana), os 100 milhões de dólares foram diretos para a conta do Mirabaud, sem passar por Espanha. “Juan Carlos disse-me que o rei da Arábia Saudita queria dar-lhe um presente em dinheiro. Expliquei-lhe que isso poderia ser delicado e que precisava de mais informações sobre essa doação”, indicou Canónica no seu depoimento ao procurador suíço Yves Bertossa. A conta foi aberta a 6 de agosto de 2008, os milhões chegariam a título de cumprimento de uma “tradição saudita” 48 horas depois.

Gestor de fortunas ao serviço de Juan Carlos

Foi o homem que tratou de todos os trâmites bancários e ainda ocupou a posição de presidente da Fundação Lucum, que ele própria tecnicamente criou (Canónica ocupava o cargo de secretário). Juntamente com o advogado suíço, é o nome que surge em todas as transações, à exceção da grande transferência de 2012 para a conta da empresa de Larsen, essa assinada pelo próprio Juan Carlos, pouco tempo antes do encerramento da conta no Mirabaud.

Em fevereiro de 2009, Espanha assistiu a um escândalo de fraude fiscal, branqueamento de capitais e tráfico de influências conhecido como Caso Gürtel. Arturo Fasana e a Rhône Gestion, empresa de gestão de grandes fortunas da qual é cofundador, estavam envolvidos na trama que favorecia o empresário Francisco Correa Sánchez em contratos públicos, parte de um esquema de corrupção do Partido Popular espanhol. Fasana chegou mesmo a ser detido, em maio de 2009, contudo a cooperação com a justiça acabou por lhe facilitar a vida.

Rei da Arábia Saudita

Em 2008, era ele quem reinava na Arábia Saudita. O famoso presente saiu diretamente do Ministério das Finanças do país e foi antecedido de uma espécie de ritual de corte — entre maio e julho desse ano, as duas famílias reais reuniram-se três vezes, a começar numa viagem de Juan Carlos I e da rainha Sofia à cidade saudita de Jeddah. Dez dias depois, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita pisava solo espanhol, juntamente com dois ministros. O namoro culminou com uma imponente gala no Palácio da Zarzuela, a 15 de julho, com a presença de Abdullah bin Abdulaziz Al Saud.

A Yves Bertossa, Corinna alegou que este tipo de doação é uma prática comum entre reis. Na verdade, o documento que regista a chegada dos milhões à Suíça descreve: “Montante enviado pelo rei Abdalla da Arábia Saudita como presente a outra monarquia, de acordo com a tradição saudita“. O monarca morreu em janeiro de 2015, muito antes de ver concluída a tão almejada linha de alta velocidade.

King Juan Carlos of Spain (L), Queen Sof

O rei Abdullah Bin Abdulaziz Al-sahud recebido em Madrid pelo rei Juan Carlos, pela rainha Sofia e pelo príncipe Felipe, atual rei de Espanha © JAVIER SORIANO/AFP via Getty Images

Ex-diretor dos serviços secretos espanhóis

É um dos nomes referidos nas cartas enviadas pelos advogados de Corinna para a Zarzuela. Sanz Roldán foi diretor do Centro Nacional de Inteligencia (CNI), organismo dos serviços secretos espanhóis, entre 2009 e 2019, e é apontado pela ex-amante do rei como o responsável por uma estratégia de difamação que se seguiu à polémica viagem ao Botsuana, em 2012. Além de responsabilizar o CNI pelo “fabrico de difusão de centenas de notícias falsas” na imprensa espanhola e, consequentemente, nos meios internacionais. Larsen foi mais longe e responsabilizou Félix Sanz Roldán por ameaças à sua integridade e da sua família, em particular por um ataque à sua casa no Mónaco. O ex-dirigente nega as acusações.

Chefe da Casa Real

É considerado o braço direito do atual rei de Espanha e, por isso, o escolhido por Felipe VI para responder às cartas de Corinna endereçadas à Casa Real. A estratégia de não cooperação poderá ser assim uma opção do próprio Alfonsín, que não assentiu ao pedido da alemã, mesmo quando esta alertou para o facto de Felipe e a filha mais velha, a infanta Leonor, serem também beneficiários da suspeita Fundação Lucum. “Nem Sua Majestado o Rei, nem esta Casa, têm qualquer conhecimento, participação ou responsabilidade nos alegados facto que menciona”, respondeu numa das ocasiões.

King Felipe VI of Spain Attends San Isidro Bullfighting Fair In Madrid

Jaime Alfonsín, à esquerda do rei Felipe VI © Europa Press/Europa Press via Getty Images

Ex-comissário da polícia

Foi ele quem gravou as conversas com Corinna, ainda que sem o seu consentimento. As gravações que espoletaram a atual investigação, em Espanha e na Suíça, datam de 2015, embora só tenham vindo a público mais tarde, depois de terem sido encontrados 40 terabytes de gravações que Villarejo mantinha em casa, incluindo as inconfidências de Larsen. Foi preso em novembro de 2017, acusado de vários crimes de corrupção.

Príncipe de Abu Dhabi

5 de março de 2019, data da primeira carta de Corinna enviada à Casa Real. Entre outros tópicos, o texto faz referência a dois automóveis da marca Ferrari oferecidos por Mohammed bin Zayed Al Nahyan, príncipe de Abu Dhabi, à monarquia espanhola, em 2011. Segundo Larsen, um deles destinou-se ao atual rei, Felipe de Borbón. Os veículos, no valor de 700 mil euros cada um, foram convertidos em património nacional e vendidos num leilão público.

Ex-chefe da Casa Real

O “sangue falou mais alto” como terá dito Juan Carlos, e no meio do turbilhão do caso Nóos, cujas investigações tiveram início em 2011, o então rei preferiu sacrificar a amante do que Cristina, a filha mais nova. “A Casa Real meteu-se. Disseram: mais vale o Iñaki [Urdangarin, marido de Cristina] e a Corinna do que o Iñaki e a Cristina”, referiu Larsen numa das conversas gravadas por Villarejo. Rafael Spottorno, na altura chefe da Casa Real, juntamente com o rei, comprometeram-se, segundo explica numa das cartas, a mostrar que Corinna não estava envolvida no caso. Ambos falharam.

Diego Torres, sócio de Urdangarin no Instituto Nóos, acusou Corinna de ter proposto uma sociedade para encobrir os fundos que o genro do rei tinha no estrangeiro. A acusação não prosseguiu. Já a infanta e o marido enfrentaram uma acusação formal em 2014, mas só ele foi condenado a prisão no desfecho do caso, em fevereiro de 2017.

Genro de Juan Carlos

Condenado a cinco anos e dez meses de prisão (após um recurso no Supermo Tribunal, em junho de 2018), Urdangarin continua preso. É ele um dos nomes mencionados por Corinna nas cartas enviadas à Casa Real, mas também num relatório elaborado pela alemã em 2004 e entregue a Juan Carlos — “[Urdangarin] não distingue a diferença entre dinheiro público e dinheiro privado. Ele quer ganhar dinheiro muito rápido e está preparado para fazer qualquer coisa”, redigiu na altura.

Urdangarin duante o recurso, em junho de 2018 © AFP/Getty Images

Primo de Juan Carlos

Além do parentesco, este Borbón é mais um alegado testa-de-ferro do rei emérito de Espanha, ligado sobretudo a despesas com viagens e voos particulares. Segundo revelou Larsen, Álvaro é o primeiro beneficiário da Fundação Zagatka, outra das estruturas usadas por Juan Carlos para esconder parte da sua fortuna no exterior.

Embaixador de Espanha no Reino Unido

A residir em Londres e a sofrer com alegadas campanhas de intimidação e difamação, Corinna Larsen procurou minorar o problema recorrendo à via diplomática. Segundo explicou, recorreu a Carlos Bastarreche, embaixador espanhol no Reino Unido, como forma de chegar à fala com a Casa Real, mas também com o governo. O primeiro contacto terá sido feito a 19 de setembro de 2018, mas a alemã garantiu nunca ter tido resposta.