Marcelo todo poderoso e a avisar Governo, a direita tradicional sob pressão absoluta da extrema-direita, a esquerda esmagada. É um quadro político delicado o que sai destas eleições Presidenciais, com o Presidente reeleito a reforçar o número de votos face há cinco anos, em pleno agravamento da pandemia, e a atualizar em alta a sua influência sobre o Governo socialista que, por sua vez, viu os seus parceiros dos últimos cinco anos a sofrerem nas urnas grande parte do descontentamento. E a alternativa à direita, o PSD, a ficar cada vez mais nas mãos de um partido da direita radical.

Vamos por partes e analisar o que esta votação pode significar para cada um dos quadrantes políticos. A começar pelo Governo de António Costa.

O primeiro-ministro foi rápido e “caloroso” na reação à vitória de Marcelo Rebelo de Sousa e quando ainda nem sequer tinha ouvido o discurso de vitória do Presidente reeleito veio logo pedir-lhe a continuação de “profícua cooperação institucional”. Parece que adivinhava que Marcelo não tardaria a vir sublinhar que a votação que leva destas Presidenciais conta com “uma significativa subida de percentagem e de voto absoluto relativamente há cinco anos”. E que mesmo com “abstenção elevada”, há que descontar “o efeito determinante da pandemia”. Ou seja, que quando tudo podia levar a uma votação por baixo, saiu por cima e que, por isso mesmo, lê no resultado que os portugueses querem “mais e melhor” da sua função.

E isto não é apenas lirismo. O “mais e melhor” de Marcelo vem com uma lista de encargos e recados para António Costa e ainda com um prazo. “Os portugueses querem mais e melhor em proximidade, em convergência, estabilidade, construção de pontes, justiça social e de modo mais urgente em gestão da pandemia. Entendi esse sinal e dele retirarei as devidas ilações”, avisou. E também disse a Costa que os fundos europeus terão de ser  bem geridos em transparência e eficácia” e que a “reconstrução vá além da mera recuperação”. Quer atenção não só ao “clima, ambiente, na energia, no digital, mas também nas demais: economia, justiça, na luta contra a corrupção, na reforma do Estado e da Defesa e na segurança”.

E deixa uma data para tirar conclusões desta empreitada: os 50 anos do 25 de abril, em 2024. No entanto a avaliação dos portugueses chegará antes, já que as legislativas (se não houver antecipação de eleições) estão previstas para 2023.

Com este discurso e apesar de garantir a Costa “solidariedade institucional total”, Marcelo coloca-se na cola do Governo. Mas também muito ativo na mensagem contra as forças extremistas que tiveram presença importante no seu discurso final, com um recado claro para o PSD.

O Presidente reeleito considera que o vazio deixado pela alternativa à maioria que está neste momento na Assembleia da República está a dar espaço ao crescimento de extremismos e “aventuras”. Não fala de André Ventura, mas essa sombra está lá. E ao Observador, durante a campanha, Marcelo já tinha reconhecido que esse era um problema, ao dizer que o que pode acontecer “a prazo” é que “não haverá um Governo de direita sem o Chega e nos termos em que o Chega quiser” e isso “é um problema para o sistema político, porque para a direita chegar ao poder é preciso um acordo plausível do PSD com um partido que tem posições que o PSD nunca teve”.

Medos e previsões de Marcelo para domingo. E para o 2.º mandato em Belém

Marcelo ganhou maior poder de influência com a terceira maior votação de sempre em Presidenciais — acima dele só Ramalho Eanes em 1976, com 61,59%, e Mário Soares em 1991, com 70,35%. Mas o Presidente reeleito viria seguramente acrescentar aqui, se pudesse, que ele é o único dos três a ir a votos no meio de uma pandemia e no seu momento de maior agravamento. Mas nem assim estará a deitar foguetes da sua casa de Cascais onde acompanhou, sozinho, a noite eleitoral. O dividido contexto político de cada vez mais difíceis e polémicos entendimentos ainda agravou mais e cabe a ele um dos principais poderes políticos: nomear o primeiro-ministro. E terá de fazê-lo obrigatoriamente em 2023. O mais tardar.

Presidenciais não são legislativas, é certo. Mas todas as contas que saem desta noite eleitoral desanimam a esquerda. 13 + 4,3 + 3,95 não passa muito dos 21%. Menos do que os 22,8% que Sampaio da Nóvoa, o candidato oficioso do PS, tinha tido nas presidenciais de há cinco anos, e muito, muito menos do que a esquerda junta conseguiu nessa altura (41%), que, já por si, foi o pior resultado para a esquerda somada desde as primeiras eleições presidenciais de 1976.

A comparação com as legislativas de 2019 assusta ainda mais. Foi Ana Gomes que a fez no seu discurso de meia-derrota: há ano e pouco a esquerda junta valia dois terços dos votos, agora não passa dos 20%. Tudo para dizer que, ou o PS se tinha chegado à frente com um candidato, ou a esquerda devia ter-se juntado numa candidatura comum para evitar a dispersão dos votos. Só não o fez, no entender da candidata socialista, porque as agendas partidárias do Bloco e do PCP falaram mais alto do que o grito pela democracia. Ana Gomes queria, Marisa Matias disse até ao fim que isso nunca esteve em questão. O objetivo das várias candidaturas à esquerda sempre foi “somar-se” umas às outras, e não subtrair-se, alegou.

Pois, não resultou. “Mas essa pergunta tem de fazer a António Costa, não a mim”. Tanto Marisa Matias como Ana Gomes apontaram um culpado: António Costa, que foi uma espécie de “mandatário” da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, que acabou por ir beber ao eleitorado socialista e de centro-direita. Resultado: os socialistas votaram em Marcelo, reduziram a esquerda a quase nada e empurraram a direita do PSD e o CDS ainda mais para a direita colando-se a Ventura. Culpa de quem? De António Costa, que “diluiu” a esquerda e a direita, deixando os extremos à deriva.

Ganhou o centro, portanto, e a extrema-direita capitalizou. E a geringonça em que estado fica? Em frangalhos. O PCP, à imagem do seu candidato, não se espalhou ao comprido. Apesar de João Ferreira ter tido menos votos (180 mil) do que o antecessor Edgar Silva (182 mil), que tinha tido o pior resultado de sempre do PCP, teve ligeiramente mais percentagem de votos e ficou ligeiramente à frente de Marisa Matias. Tudo poucochinho. Marisa Matias caiu de dez andares. Depois de, há cinco anos, ter tido 10% e 470 mil votos, agora nem chegou aos 4% e com apenas 165 mil votos. Há cinco anos, o BE acabava de integrar uma geringonça inédita e a esquerda sorria, agora o BE acaba de chumbar um Orçamento ao PS e, à esquerda, apenas Costa parece sorrir.

Se o Bloco está a perder o chão, o PCP está a perder o Alentejo, tendo sido ultrapassado por Ventura nos principais distritos de Évora, Portalegre, Beja e também Santarém. E se André Ventura é sinónimo de Chega e João Ferreira de PCP, a leitura é inevitável. Vêm aí autárquicas e depois legislativas, e desta ida às urnas não se augura bons sinais para os comunistas.

Já quanto a Ana Gomes, saiu como entrou: com sentimento de “dever cumprido” por ter servido tanto quanto pôde de tampão para André Ventura. De que lhe valerá? Ou uma posição de destaque na direção de um PS totalmente diferente do atual, sem António Costa e com Pedro Nuno Santos, ou uma segunda volta daqui a cinco anos já com o carimbo dos socialistas. Ana Gomes não diz que não. Nunca se reformará da política e do combate cívico. Pois bem, “até uma próxima”. Foi assim que se despediu.

Facto um: em pouco mais de dois anos, André Ventura e o Chega conseguiram septuplicar o resultado nas urnas. Seja qual for o ângulo com que se olhe para estas eleições, será sempre um resultado impressionante para Ventura. Facto dois: a tendência de votos registada nestas presidenciais é semelhante àquela que foi registada nas legislativas de 2019, que faz de Ventura mais forte no interior e no sul do país, com uma grande capacidade de penetração em bastiões onde o PCP e o PS sempre discutiram o poder e onde os partidos tradicionais de direita são residuais.

Toda e qualquer comparação com outras eleições, nomeadamente com legislativas, inspira sempre muitas cautelas. Estas presidenciais ainda mais, por maioria de razão: a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa era um dado adquirido e não havia um apelo ao voto útil.

E é neste contexto muito particular que Ventura chega aos dois dígitos, ultrapassando por larga distância candidatos perfeitamente experimentados com máquinas partidárias bem reconhecidas como Marisa Matias e João Ferreira, do Bloco e do PCP.  Somando este resultado de hoje ao que tem sido a tendência das últimas sondagens, é cada vez mais seguro afirmar que o Chega pode ser, dois anos depois de ser fundando, a terceira força política do país.

E deixa uma pergunta à direita: o que fazer se um dia for chamada a governar? Esse mesmo dilema sentiu-se nas declarações de Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos. O líder do PSD preferiu desvalorizar o resultado de Ventura e apontar para o esmagamento da esquerda nestas eleições — ignorando que Ventura também foi particularmente forte nos distritos onde o PSD venceu em 2019 (Bragança, Vila Real, Viseu e Leiria) e conseguiu crescer em territórios onde o PSD tem falhado em crescer.

O líder do CDS, partido que titubeou até decidir finalmente apoiar Marcelo Rebelo de Sousa, colou-se ao resultado do Presidente da República e reclamou vitória, ignorando, no entanto, que grande parte do eleitorado que escolheu André Ventura pertencia ao CDS — de acordo com última sondagem Observador/TVI/Pitagórica, 35% das pessoas que diziam que iam votar Ventura eram do CDS, as mesmas que diziam que iam votar Marcelo.

Ventura sabe que se tornou central perante um PSD em mínimos olímpicos e um CDS em vias de extinção. No discurso que fez já ao final da noite eleitoral, o líder do Chega apontou deliberadamente ao coração da direita e deixou um aviso: “PSD, ouve bem, não haverá Governo em Portugal sem o Chega.”

Num exercício com muito pouco rigor científico: se o Chega tivesse meio milhão de votos nas legislativas (tal como teve o Bloco em 2019) elegeria 19 deputados. Se se retirassem os eleitores que votaram no CDS nessas eleições (220 mil), o Chega continuaria a valer mais do que o partido de Francisco Rodrigues dos Santos. “Dificilmente as pessoas que votaram hoje [este domingo] no André, deixarão de votar Chega nas próximas legislativas”, comentava com o Observador fonte do núcleo duro de Ventura à margem da noite eleitoral. E é bastante provável que assim seja.

O Iniciativa Liberal também pode dizer que saiu desta noite eleitoral com renovadas esperanças de fazer parte de uma futura solução de direita. Mais uma vez: comparar estas eleições com anteriores e futuras legislativas é sempre um exercício arriscado. Ainda que sem o peso do voto útil, Tiago Mayan Gonçalves, um perfeito desconhecido para a generalidade dos portugueses, conseguiu duplicar os votos conseguidos pelo partido nas últimas legislativas.

Mais interessante do que olhar para números globais, é importante olhar para o que conseguiu Mayan em termos locais: em distritos como Braga, Porto, Aveiro e Lisboa, o candidato do Iniciativa Liberal conseguiu ficar à frente de Marisa Matias e/ou de João Ferreira. Mais: nos concelhos do Porto e Lisboa teve resultados de partido médio — 8% no Porto e 6,5% em Lisboa. Ou seja, a tendência de penetração nos grandes centros urbanos, junto de um eleitorado com características muito reconhecidas (classe média, média alta, instrução superior) continua a fazer o seu caminho.

Com uma nota especial: foi no Norte Litoral, onde Ventura foi mais fraco, que Mayan mais sucesso teve. O que prova que o Iniciativa Liberal e Chega crescem em pistas diferentes e não se anulam necessariamente.