Portugal

Mário Centeno define o melhor perfil para governador do BdP: “político” 

“É muito interessante quando se diz que o governador do Banco de Portugal tem de ser um técnico. Não, não! O Governador do Banco de Portugal é um ator político da maior relevância. Conduz as políticas macroprudênciais, as políticas comportamentais, as políticas de supervisão, e depois participa na definição da política monetária do BCE (Banco Central Europeu). Já viu a quantidade de vezes que eu disse a palavra política?”. É assim, em discurso direto, que o ministro das Finanças, Mário Centeno, define o perfil ideal do próximo Governador do BdP numa entrevista publicada na edição desta quinta-feira da revista Visão.

O comentário imediato dos entrevistadores Filipe Luís e Tiago Freire é óbvio: “Mas o senhor ministro está a definir o seu próprio perfil”. Centeno nega duas vezes, mas também deixa uma nuance no ar: “Não, não estou”. “O meu perfil é de ministro das Finanças, nesta altura”. E justifica, então, o foco dado à política: “estou a tentar que não incorramos num erro. De pensar que estamos a falar de alguém que não tem nenhuma relação com a sociedade. Esse foi um dos erros que cometemos durante a crise (…).

Com ironia e humor, Centeno começou por comentar a hipótese de vir a ser o próximo governador do BdP dizendo: “Tenho verdadeiros agentes de colocação no mercado, estão sempre muito preocupados com o futuro laboral do agora ministro das Finanças”.

Em dezembro, numa entrevista ao Expresso, Centeno já tinha sido claro sobre um possível futuro no BdP ao dizer: “Não vejo nenhum conflito de interesses”. E se não há incompatibilidade em sair da função de ministro das Finanças, com a tutela do BdP, para assumir funções na instituição tutelada, explica porquê: “não há nada nos tratados que restrinja o lugar de governador do banco central àquilo que é o passado enquanto político, ou ministro das Finanças ou o que for, e dei exemplos de casos em que isso aconteceu”.

Acrescenta mesmo: “eu já era presidente do Eurogrupo quando essas nomeações foram feitas, tudo isto é factual, nada disto é sequer valorativo, não deverá ser avaliado de outra maneira”.

"Último garante" é o próprio ministro das Finanças

O ministro não aponta timings para o processo de indicação do próximo governador, dizendo apenas que a decisão “vai ser tomada a seu tempo”. Garante que do ponto de vista do Governo não houve ainda conversas sobre a matéria e admite que o assunto está na sua agenda: “Eu sou muito organizado e não costumo sofrer de ansiedade com coisas que vão aparecer várias semanas ou meses à minha frente na agenda”.

Ainda sobre o papel/perfil do próximo governador do banco central, Centeno não tem dúvidas de que o cargo tem de ser entregue a alguém que respeite a instituição, mas também o seu papel na sociedasde portuguesa. “O BdP faz parte da sociedade portuguesa, não é uma entidade estranha (…). Ter a dimensão de conhecimento e de relacionamento com a sociedade portuguesa é absolutamente essencial para esse papel”, na certeza de que o BdP tem de participar num conjunto de obrigações em que o ministro das Finanças aparece como “último garante”.

Afinal, “o último garante da estabilidade financeira não é o Banco de Portugal, nem a CMVM, nem a ASF, é o Ministério das Finanças”, afirma Centeno, um dos dois candidatos, neste momento, ao cargo de governador do BdP, a par de Luís Máximo dos Santos, “um homem do BdP”, de acordo com o curto perfil traçado pelo Expresso, numa artigo sobre o tema publicado na sua última edição, onde destaca o facto de ter estado 18 anos nos serviços jurídicos do banco central, de onde saiu em 2010 para liderar a comissão liquidatária do BPP, com a qual acumulou depois a administração do BES “mau”, mas onde voltou em 2016, como vice-governador e tem a tutela da supervisão comportamental e departamento de resolução bancária.