Cento e oitenta refugiados resgatados do mar pelo navio humanitário “Ocean Viking” estão há uma semana à espera de autorização para desembarcar num porto europeu e ameaçam saltar para o mar, denunciou esta quinta-feira a organização SOS Mediterrâneo.

A falta de solidariedade dos Estados-membros da União Europeia tem implicações diretas nos 180 resgatados a bordo: as tensões aumentaram e alguns ameaçam saltar” para o mar, escreveu a organização humanitária francesa no Twitter.

Frédéric Penard, diretor de operações da SOS Mediterrâneo, que opera o navio “Ocean Viking”, denunciou, na mesma rede social, uma situação “que se assemelha à de há dois anos com o navio ‘Aquarius'”.

O navio de resgate no mar “Aquarius” esteve, em junho de 2018, vários dias à deriva, à espera de autorização para atracar num porto europeu, com 630 migrantes a bordo resgatados perto da costa da Líbia.

Tanto os governos de Itália como de Malta rejeitaram acolher o navio, acabando por ser o então recém-formado governo espanhol a oferecer um porto ao navio.

Poucos dias depois, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, encontrou-se com a chanceler alemã, Angela Merkel, para discutir o tema da imigração e a resposta europeia ao fenómeno, numa tentativa de criar, em conjunto com a França e Portugal, um acordo de redistribuição mais equitativa dos migrantes por toda a Europa.

“Estamos novamente num limbo e sem indicação de porto de desembarque”, referiu.

O navio “Ocean Viking” resgatou 180 pessoas em cinco dias, no âmbito de quatro operações diferentes realizadas nas regiões de Malta e Itália.

Os dois primeiros resgates aconteceram há uma semana e o navio enviou cinco pedidos às autoridades marítimas de Itália e de Malta para a atribuição de um porto de desembarque, mas ficou sempre sem resposta.

Alguns dos migrantes disseram à equipa do “Ocean Viking” que tinham passado entre dois e cinco dias no mar antes de serem resgatados.

“Esta situação é insuportável”, acrescentou Penard, questionando o que aconteceu ao acordo alcançado em Malta no ano passado para distribuição de migrantes resgatados pelos vários países da UE.

Os sobreviventes “arriscaram as vidas para fugir da violência e dos abusos na Líbia, que está devastada pela guerra: as tensões a bordo do nosso navio estão a aumentar e vários ameaçam saltar para o mar. Muitos sofreram queimaduras solares e de combustível durante o tempo que passaram em barcos”, acrescentou o chefe da ONG.

Entre os 180 resgatados a bordo contam-se duas mulheres e 25 crianças, das quais 17 não estão acompanhadas, e há pessoas de 13 nacionalidades diferentes.

O número de pessoas forçadas a fugir devido a conflitos, perseguições e outras violências em todo o mundo (refugiados, requerentes de asilo, deslocados internos e apátridas) atingiu em 2019 os 79,5 milhões, o que representa mais de 1% da Humanidade, segundo dados divulgados pela ONU há duas semanas.

No final do ano passado, existiam 29,6 milhões de refugiados e 4,2 milhões de requerentes de asilo, de acordo com os mesmos dados.