Portugal

Não entrei em Medicina, e agora?

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Posso mesmo dizer que sou do tempo, ainda não muito distante, em que entrar em Medicina era o orgulho de qualquer família. Não havia pai ou mãe que não sentisse alguma graciosidade quando dizia “o meu filho/a entrou em Medicina”. Na área das Ciências, cursos como Engenharia Física eram conotados com uma mais que provável falta de perspetiva de um futuro risonho, sendo este apenas seguro com o ingresso em Medicina.

Não quero com isto fazer uma apologia de que os melhores alunos do nosso ensino secundário não podem ou não devem seguir outros rumos, mas nos últimos anos algo aconteceu. A Medicina deixou de ser atrativa para a “nata da sociedade”, caindo paulatinamente no leque de escolhas do acesso ao Ensino Superior em detrimento de cursos como Engenharia Aeroespacial ou Engenharia Física Tecnológica.

Não é difícil compreender o que se passou. O conforto do status quo, a previsibilidade do futuro, a sensação de segurança, são sentimentos que deixaram de existir associados a Medicina.

Depois de um longo curso de 6 anos numa Faculdade de Medicina sobrelotada, em que o rácio professor/aluno é muito acima do desejável, pensamos em tirar uma especialidade para prosseguir a carreira. Mas, quando pensamos que o pior já passou, este ainda nem sequer começou.

Não existem capacidades formativas para que todos os alunos que terminam o curso de Medicina (cerca de 1800/ano) ingressem numa especialidade. Para isso é necessário fazer uma Prova Nacional de Seriação que se tornou uma competição olímpica, que exige notas cada vez mais altas para tentar conseguir ingressar num programa de formação especializada. Claro que poderão dizer que esta competição é salutar, na medida em que selecionará os melhores e mais bem preparados para uma nova fase que é muito exigente. Mas o que esta pressão de candidatos originou foi um sistema perverso em que o que se avalia não são os conhecimentos em Medicina, mas sim a capacidade de memorização, o que poderia ser feito com o Livro de Pantagruel, que também contém pormenores que podem ser diferenciadores. Esperemos que este panorama se modifique com a nova prova que se iniciará no próximo ano.

Quando finalmente se consegue entrar numa das vagas de formação especializada deparamo-nos com uma nova e dura realidade. Temos mais de 25 anos de idade e ainda nos aguardam 4 a 6 anos de um programa formativo intenso, com avaliações anuais e o cumprimento de um número mínimo de requisitos (cirurgias, consultas, contacto com determinadas patologias, etc.), para no final desse programa submetermo-nos a uma avaliação onde poderemos adquirir o grau de especialista. Tudo isto associado a um horário de 40h/semana (que rapidamente se transforma em 70-80h/semana) e faustosamente remunerados a 8€/hora.

E quando finalmente terminamos a especialidade, passados 13 anos desde o ingresso na Faculdade de Medicina, temos de aguardar durante alguns meses pela abertura de concurso para sermos contratados por um hospital do Serviço Nacional de Saúde que oferece 40h/semana e 12€/hora.

Realmente não é difícil compreender as escolhas dos jovens hoje em dia!

Neurocirurgião no Hospital de Santa Maria, Lisboa, e antigo presidente do Conselho Nacional do Médico Interno da Ordem dos Médicos

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