Os festejos dos adeptos do Sporting, esta terça-feira, marcaram a atualidade desportiva mas também a atualidade nacional e política, entre reações das principais figuras do Estado e perguntas ao primeiro-ministro no debate bimensal que decorreu durante a tarde na Assembleia da República. As multidões, as cargas policiais, o desrespeito pelo distanciamento social e a ausência de máscaras foram as principais linhas de uma noite marcada pela polémica dentro da festa. E suscitaram uma pergunta: como é que é, ou tem sido, lá fora?

Ora, na generalidade dos outros países, a história repete-se. O Ajax juntou milhares de pessoas no fim de semana passado, outros milhares encheram a Piazza Duomo quando o Inter Milão conquistou a Serie A e os adeptos do Nápoles não encurtaram a festa que andava adiada há seis anos. Mas, pelo meio, também existem bons exemplos.

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Manchester City

Tal como o Sporting, também o Manchester City foi campeão esta terça-feira. A equipa de Pep Guardiola conquistou a Premier League pela terceira vez em quatro anos no sofá, beneficiando da derrota do Manchester United contra o Leicester, e os festejos acabaram por ser parcos. Cerca de 100 pessoas juntaram-se perto do Etihad, sem grandes euforias e apenas algumas camisolas e bandeiras, e a ausência de grandes multidões acabou por motivar muitas piadas nas redes sociais. “Parece um churrasco de família”, “quem é que deixou este clube de lata ter a melhor equipa do país?”, “Jesus, isto é patético” e “parece que apareceram todos os adeptos do City”, foram algumas das frases que surgiram no Twitter.

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Bayern Munique

Assim como o Manchester City, também o Bayern Munique foi campeão sem jogar — e horas antes de entrar em campo. No passado sábado, a derrota do RB Leipzig contra o Borussia Dortmund fez com que os bávaros recebessem o Borussia Mönchengladbach já enquanto campeões alemães pelo nono consecutivo. A conquista da Bundesliga foi confirmada com uma retumbante goleada por 6-0 mas os adeptos pouco ou nada festejaram, excluindo alguns aglomerados espontâneos no centro da cidade de Munique.

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Liverpool

O Liverpool foi um dos primeiros clubes a ser campeão já debaixo da pandemia e de todas as regras sanitárias consequentes, no ano passado. Ainda assim, e um bocadinho à semelhança do que aconteceu com o Sporting esta terça-feira, os reds não eram campeões ingleses há 30 anos — um jejum que motivou gigantescos ajuntamentos em Anfield, com potes de fumo e pirotecnia. Em junho do ano passado, a polícia optou não fazer qualquer tipo de tentativa de dispersão da multidão e só controlou os ânimos. A maioria dos adeptos do Liverpool usou máscaras, apesar de estas ainda não serem obrigatórias na via pública em Inglaterra na altura, e a noite da conquista do título foi passada sem distanciamento social mas sem confrontos. Um mês depois, porém, as autoridades decidiram emitir uma ordem de dispersão durante 48 horas para evitar que os adeptos se juntassem nas imediações de Anfield durante a cerimónia de entrega do troféu. Os apoiantes dos reds não acataram a ordem e permaneceram, sem que tivesse existido qualquer carga policial.

Fans Celebrate Liverpool FC Winning The Premier League Title

A multidão de adeptos que se juntou perto de Anfield quando o Liverpool conquistou a Premier League, em 2019/20

Nápoles

Em junho do ano passado, o Nápoles derrotou a Juventus na final da Taça da Itália e conquistou o primeiro troféu do clube em seis anos. Milhares de pessoas encheram o centro da cidade — sendo que a larga maioria não utilizava máscaras e o distanciamento social nunca era cumprido. Num país que foi intensamente afetado pela Covid-19, as reações às celebrações dos adeptos do Nápoles não demoraram muito a aparecer, com o o diretor-geral adjunto da Organização Mundial de Saúde a descrever os acontecimentos como “irresponsáveis”. “Neste momento, não podemos permitir este tipo de coisas”, disse Ranieri Guerra, que comparou os episódios aos que aconteceram na sequência do jogo da Liga dos Campeões entre a Atalanta e o Valencia, em 2019/20, que foi considerado a “bomba biológica” que deixou Bérgamo à mercê da pandemia.

Os adeptos do Nápoles invadiram a estação central da cidade para receber a equipa, que acabou por sair num apeadeiro secundário para evitar a multidão, e o autarca napolitano acabou por defender todos os apoiantes, garantindo que as críticas eram “hipócritas”. “Ou os jogos não aconteciam até setembro ou, de certa maneira, o que aconteceu nesta noite era inevitável. Só as pessoas que não conhecem o Nápoles é que podiam pensar que, depois de uma vitória contra a Juventus do Sarri e do Higuaín, os napolitanos iriam ficar em casa a celebrar. Mas isso não significa que as pessoas desta cidade encarem o vírus com leviandade, porque desde o início de junho que o nível de contágio em Nápoles é zero”, explicou Luigi De Magistris, acrescentando que a única crítica que poderia ser feita aos adeptos era o facto de terem saltado para dentro de uma fonte histórica.

Inter Milão

Tal como o Manchester City e o Bayern Munique, também o Inter Milão foi campeão no sofá. A equipa de Antonio Conte beneficiou do empate da Atalanta contra o Sassuolo e, assim que o jogo acabou, os adeptos nerazzurri correram para a Piazza Duomo, no centro histórico de Milão. Os apoiantes do Inter usaram poucas máscaras para celebrar o regresso do clube ao topo da Serie A, depois de um jejum de mais de uma década, e subiram a monumentos para lançar pirotecnia ou potes de fumo. O Inter chegou a pedir responsabilidade aos adeptos, através das redes sociais, mas de pouco ou nada valeu.

Ajax

Por fim, o Ajax. O clube de Amesterdão tornou-se campeão no fim de semana passado depois de golear o Emmen em casa e milhares de adeptos juntaram-se nas imediações da Johan Cruyff Arena — principalmente depois de terem perdido a oportunidade de conquistar a liga holandesa na época passada, já que o futebol não chegou a recomeçar no país depois da interrupção motivada pela pandemia. Os jogadores de Erik ten Hag saudaram os apoiantes a partir da varanda do estádio e até atiraram algumas medalhas de campeão, o que levou a que algumas dezenas de pessoas tentassem trepar uma parede para chegar mais perto da equipa. As autoridades chegaram a pedir aos adeptos para que não se deslocassem ao estádio, já que a área estava “demasiado ocupada”, e a autarca de Amesterdão reconheceu que foi difícil preparar o momento devido à incerteza sobre o timing da conquista. “Tivemos em conta muitos cenários mas não estávamos mesmo à espera de que os adeptos viessem celebrar. Especialmente porque ainda era totalmente incerto, até esta tarde, saber quando é que o Ajax seria campeão. Damos o nosso melhor para prevenir novos surtos de contágio mas, como autarca, não posso saber nada em avanço”, explicou Femke Halsema.