Portugal

O prólogo de Nação das Plantas, de Stefano Mancuso

Há precisamente cinquenta anos, na véspera de Natal de 1968, a missão espacial Apollo 8 conduzia, pela primeira vez na história da humanidade, uma tripulação em órbita ao redor da Lua. William Anders, Frank Borman e James Lovell foram os primeiros felizes mortais a poder observar o lado oculto do nosso satélite e a encantar-se perante o espectáculo do surgimento da Terra. No decorrer dessa missão, durante uma das dez órbitas em redor da Lua, William Anders tirou uma fotografia que se tornaria célebre, fazendo justamente parte dos ícones da recente história da humanidade: o amanhecer da Terra observado da Lua. Todos nós, em algum momento, já vimos uma reprodução sua. Representa o globo terrestre, com a sua parte inferior parcialmente à sombra, o Sul em cima e a América meridional no centro da imagem, a surgir além do horizonte lunar. Um mundo azul e verde, com nuvens brancas que entrelaçam delicadamente toda a sua superfície. Aquela foto, intitulada pelo seu autor Earthrise e catalogada pela NASA com a menos poética sigla AS8-14-2383HR, alterou para sempre a nossa ideia da Terra, revelando-nos um planeta de majestosa beleza, mas igualmente frágil e delicado. Uma colorida ilha de vida num universo vazio e escuro.

Um planeta verde por via da vegetação, branco por via das nuvens e azul por via da água. Estas três cores, que são a assinatura do nosso planeta, por um ou outro motivo, não existiriam sem as plantas. São estas que tornam a Terra aquilo que conhecemos dela. Sem as plantas, o nosso planeta assemelhar-se-ia muito às imagens que possuímos de Marte ou de Vénus: uma esfera estéril de rocha.

No entanto, conhecemos muito pouco ou quase nada destes seres que representam a quase totalidade do que vive, que literalmente formaram o nosso planeta, e dos quais todos os animais – obviamente, homens incluídos – dependem. É um grande problema, que nos impede de compreender o quão importantes são as plantas para a vida na Terra e para a nossa própria, mais imediata, sobrevivência. Ao percepcionarmos as plantas como algo mais próximo do mundo inorgânico do que da plena vida, cometemos um erro fundamental de perspectiva, que nos poderá custar caro. Para tentar remediar a escassa consciência que temos do mundo vegetal e a baixa estima pelo mesmo, dado que nós homens compreendemos somente as categorias humanas, este livro trata as plantas como se todas elas fizessem parte de uma nação, ou seja, de uma comunidade de indivíduos que partilham a mesma origem, história, organizações e objectivos: a Nação das Plantas.

Ao olharmos para as plantas como quem olha para uma nação humana, os resultados são surpreendentes. A Nação das Plantas, com a sua bandeira tricolor, verde, branca e azul (são as cores do nosso planeta e dependem da presença delas), representa a mais populosa, importante e difusa nação da Terra (somente as árvores totalizam um número acima dos três biliões). Constituída por cada um dos seres vegetais presentes no planeta, é a nação da qual todos os outros organismos vivos dependem. Pensavam que as grandes potências mundiais eram os verdadeiros donos da Terra ou achavam que dependiam dos mercados dos Estados Unidos e da União Europeia? Bem, estavam enganados. A Nação das Plantas é a única, verdadeira e eterna potência planetária. Sem as plantas, os animais não existiriam; a própria vida no planeta, provavelmente, não existiria, e no caso de existir, seria algo de terrivelmente diferente. Graças à fotossíntese, as plantas produzem todo o oxigénio livre no planeta e toda a energia química consumida pelos outros seres vivos. Existimos graças às plantas e só poderemos continuar a viver se estivermos na sua companhia. Termos esta noção bem presente ser-nos-ia de grande ajuda.

O homem, ainda que se comporte como tal, não é de modo algum o dono da Terra, mas somente um dos seus condóminos mais desagradáveis e molestos. Deste modo, desde a sua chegada, há cerca de 300 000 anos – nada quando comparados com a história da vida, que remonta a 3,8 mil milhões de anos –, ele conseguiu alterar tão drasticamente as condições do planeta que o tornou um lugar perigoso para a sua própria sobrevivência. As causas deste comportamento irresponsável explicam-se em parte pela natureza predatória inata do homem e penso que noutra parte dependem da sua total incompreensão das regras que regem a existência de uma comunidade de seres vivos. Últimos a chegar ao planeta, comportamo-nos como crianças que provocam desastres, desconhecendo o valor e o significado das coisas com que jogam.

Fantasiei que as plantas, tal como pais zelosos, depois de nos terem dado a possibilidade de viver, apercebendo -se da nossa incapacidade de nos desenvolvermos autonomamente, viriam de novo em nosso auxílio, oferecendo-nos regras – na verdade, a sua própria constituição – para seguirmos, como um prontuário para a sobrevivência da nossa espécie.

O livro que têm em mãos aborda precisamente os oito pilares fundamentais através dos quais se rege a vida das plantas. Mais um do que os sete pilares da sabedoria de Thomas Edward Lawrence (o famoso Lawrence das Arábias); contudo, sem quaisquer pretensões de sabedoria, mas apenas de sentido de oportunidade.

Imaginar uma constituição escrita pelas plantas, para a qual eu sirvo de elemento de ligação com o nosso mundo, é o exercício divertido de que resultam as páginas deste livro. Uma constituição escrita pelas plantas, e em nome das plantas, por quem nada conhece acerca de matérias jurídicas. O meu irmão, que pelo contrário é um grande e douto magistrado, advertiu-me de imediato sobre os perigos que eu corria ao brincar com textos veneráveis e aconselhou-me a abandonar o projecto. Como bom irmão que sou, não lhe dei ouvidos, e assim não me resta alternativa senão esperar pela indulgência do tribunal a respeito das inevitáveis imprecisões que consegui cometer ao escrever os poucos artigos pelos quais se rege a Nação das Plantas.

Trata-se de uma constituição curta, a qual, baseando -se nos princípios gerais que regulam a convivência das plantas, estabelece normas que têm como sujeitos todos os seres humanos. Efectivamente, o homem não é o centro do universo, mas somente uma de entre os muitos milhões de espécies que, povoando o planeta, formam a comunidade dos seres vivos. Esta comunidade é o sujeito da constituição vegetal; não apenas uma única espécie ou alguns grupos de espécies, mas toda a vida no seu conjunto. Ao contrário das nossas constituições, as quais, em conformidade com um antropocentrismo que reduz a coisas tudo aquilo que não seja humano, colocam o homem no centro de toda a realidade jurídica, as plantas propõem-nos uma revolução. Tal como acontece com aquelas frases em que basta modificar o tom ou a cadência de uma única palavra para que o significado geral obtido seja diametralmente oposto ao inicial, modificarmos a ênfase de uma única espécie para uma comunidade de espécies ajuda -nos a compreender as regras que governam a vida.

Nas páginas que se seguem encontrarão descritos os artigos da Constituição da Nação das Plantas, tal como me foram transmitidos pelas próprias plantas na minha já longa convivência de várias dezenas de anos com estas caras companheiras de viagem. Cada artigo é acompanhado por uma breve explicação que deverá ajudar a clarificar a sua compreensão. Boa leitura.