Num primeiro momento do confinamento, as empresas de transportes públicos mantiveram a oferta, pelo menos durante os dias da semana —  houve cortes nos serviço ao fins de semana (com a exceção do próximo domingo, dia de eleições presidenciais). No entanto, admitem vir a reajustar de novo a oferta em função da procura ou de novas restrições com impacto da imobilidade. É o caso do fecho de todas as escolas, anunciado pelo primeiro-ministro, que arranca na sexta-feira.

Com o fecho das escolas e as férias “administrativas”, os operadores podem vir a reduzir mais a oferta ou até a praticar os horários usados nos períodos de férias escolares, não só as empresas públicas, mas também as privadas que asseguram o serviço público de transportes a nível nacional. Para o presidente da ANTROP (Associação Nacional de Transportes de Passageiros), faz sentido passar a ter uma oferta ajustada ao período não escolar, mas essa é uma decisão que cabe às autoridades de transportes, sublinha Luís Cabaço Martins.

O responsável assegura ainda que operadores privados “não reduziram absolutamente nada nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto”, até porque só o poderiam fazer com a autorização das respetivas autoridades metropolitanas. Mas admite que podem vir a existir conversas nesse sentido.

O Metro do Porto manteve “inalterada a sua oferta em todas as linhas e em todos os períodos horários. Sem qualquer diminuição do número de viagens, nem de frequências nem de capacidade. Tanto nos dias úteis como nos fins-de-semana”. Já a procura continua “claramente abaixo do limite de lotação de dois terços da capacidade total”. “Os primeiros dados desta semana (desde 18 de Janeiro) refletem uma diminuição na procura na ordem dos 30% face à semana anterior. Esta semana, o número de clientes ronda os 100 mil/dia, contra uma média de 150 mil/dia na semana passada (a média pré-pandemia era na ordem dos 280 mil clientes/dia).

Já os STCP, empresa de transportes coletivos do Porto, ajustou a oferta também durante a semana, com uma redução da ordem dos 12% nos dias úteis. E manteve a oferta no fim de semana, que já estava reduzida a partir das 13h00 em nove linhas e que será excecionalmente reposta a 100% no próximo domingo, para assegurar a mobilidade nas presidenciais. As três linhas de elétrico da cidade (1, 18 e 22) foram suspensas a 15 de janeiro, mas os STCP garante que existem soluções de mobilidade alternativa naqueles trajetos.

A empresa de transportes do Porto adianta que o número de passageiros estava a diminuir desde o início do ano de 2021, para valores da ordem dos 170 mil passageiros, menos 15% do que a procura dos melhores dias já na fase de pandemia. Mas esta queda acentuou-se fortemente com o novo confinamento. Dados da última segunda-feira, e com base nos títulos validados, apontam para uma queda de quase 40% face à procura registada em outubro do ano passado.

“Estes dados são ainda provisórios, mas permitem ter a noção da evidente redução dos níveis de procura que se tem verificado desde 15 de janeiro, data do início do segundo confinamento geral”, adianta fonte oficial da empresa ao Observador. Mas perante as novas restrições à circulação e atividades (como o fecho das escolas) poderão vir a verificar-se novos a ajustamentos da oferta, tendo em consideração a procura, adianta.

A mesma fonte salvaguarda que esta queda da procura não é igual em todas as linhas, daí que os STCP estejam a tentar “injetar reforços em viagens nas quais se detetam lotações elevadas”, destacando o maior número de autocarros.

Em Lisboa, o Metro de Lisboa e a Carris também anunciaram logo ajustamento às suas ofertas que, no essencial, mantém os níveis de serviço durante os dias úteis para o horário de inverno.

A Carris referia a intenção de monitorizar diariamente a procura para manter o serviço ajustado às necessidades do regime excecional que se vive. Mas não refere para já se irá reavaliar a oferta durante a semana, na sequência do anúncio do encerramento das escolas.  O Metropolitano de Lisboa também comunicou, logo após o anúncio do confinamento, que manteria o seu serviço de exploração com a oferta a 100%,.

A empresa assegura que o serviço nos dias úteis tem um intervalo médio entre comboios, nas horas de ponta da manhã, de 3 minutos e 35 segundos a 4 minutos, e de 6 minutos nas horas de ponta da tarde. E, tal como a Carris, também tenciona “monitorizar e a acompanhar o evoluir da situação, em função dos níveis de procura, adotando as medidas que, a cada momento, se vierem a considerar necessárias para garantir as melhores condições de saúde e de segurança”.

Já nos fins de semana e feriados, as duas empresas reduziram a oferta. A Carris suspendeu os serviços de elevadores de Santa Justa, o elétrico 24E, bem como as carreiras 716, 720, 732 e 797 (considerando a existência de sobreposições com outras linhas). Nas carreira de Bairro, apenas a 40B opera. O Metropolitano de Lisboa reduziu número de carruagens em cada comboio, passando a circular com comboios de 3 carruagens cada, em vez de 6, mantendo os horários atualmente em vigor.

Já a CP manteve a 100% a sua oferta de comboios urbanos, regionais e inter-regionais. Nos comboios Intercidades, mantém-se a oferta em vigor durante os dias da semana, mas há algumas alterações nos dias de fim-de-semana. Apenas os comboios Alfa Pendular sofreram alterações na oferta diária, de acordo com a informação avançada pela empresa que espera manter a atual oferta em vigor também durante fevereiro.

Apesar de manter o serviço e da queda da procura que chega a 50%, a lotação em transportes públicos, em pleno confinamento, foi notícia esta semana depois de uma avaria ter atrasado o arranque da operação na linha de Sintra esta quarta-feira. A CP garantiu que a situação foi pontual e estava resolvida às 07h00 de quarta-feira e adiantou ao Observador que o número de passageiros naquela linha, a mais movimentada em Portugal, caiu para metade já em janeiro, face ao mesmo período do ano passado, antes da pandemia.

Sobrelotação foi “pontual”. CP diz que procura na linha de Sintra caiu 50%

No entanto, a questão da lotação tem sido uma dúvida recorrente sobre a capacidade de resposta dos transportes públicos. De uma maneira geral, todos os operadores garantem cumprir a regra do Governo que limita a ocupação a dois terços da capacidade, mas não é claro como é que as empresas controlam em cada composição esse limite, que não foi respeitado nos primeiros comboios que circularam na linha de Sintra esta quarta-feira.

Ocupação não cumpriu regra dos dois terços nos primeiros comboios da quarta-feira na linha de Sintra

Outra limitação é a distribuição de pessoas dentro de um veiculo. O presidente da ANTROP reconhece que num transporte publico “é sempre difícil garantir o afastamento porque isso depende do comportamento das pessoas”, ainda que em tese, dois terços de ocupação permita uma distribuição aceitável por veículo. Cabaço Martins diz que a associação optou por não ter posição oficial sobre o tema, deixando essa decisão para o Governo.

Ainda que os dois terços sejam uma regra adotada noutros países europeus, há uma grande assimetria entre alguns. Na Alemanha, por exemplo, não foram impostos limites à capacidade. Já o Reino Unido desaconselha as pessoas a usarem os transportes públicos. O responsável da ANTROP diz que estas incongruências são um problema para os operadores no transporte internacional de passageiros. Se até à fronteira, os autocarros não podem ter todos os lugares sentados ocupados, em Espanha essa imposição não existe.

De acordo com este responsável, os estudos conhecidos elaborados durante a primeira vaga da pandemia, apontam para que o nível de contágios nos transportes públicos residual. No entanto, todas as empresas afirmam manter as ações de higienização e desinfeção das instalações, veículos e equipamentos adotados na primeira fase da pandemia.

A CP sublinha que desde março de 2020 e até ao final do ano foram desinfetados 221.941 veículos ferroviários, numa média diária superior a 765 veículos/dia. E acrescenta que estes processos foram já objeto de certificação que envolveram auditorias a instalações, comboios e oficinas.