Os primeiros encontros até ao final de agosto de uma qualquer temporada normal têm o condão de colocarem em ação vários jogadores que com o tempo acabam por perder a sua posição de forma natural. Agora, nestes tempos de pandemia, também isso mudou. E se é verdade que o mercado fecha apenas na primeira semana de outubro, existiu para o Sporting um outro adversário chamado Covid-19. Para a receção ao Aberdeen fez oito baixas, para o encontro em Paços de Ferreira ainda levou a seis ausências, agora para o jogo com o LASK Linz já seriam apenas três – com essa boa notícia de Rúben Amorim ter regressado aos treinos e essa má notícia de Jovane Cabral se ter entretanto lesionado. O plantel, não estando fechado, ficava mais completo. Assim como a equipa.

Depois de uma partida falhada frente aos escoceses onde se salvou apenas a passagem ao playoff da Liga Europa, os leões mostraram uma outra face na estreia no Campeonato. Tiveram mais capacidade para controlar ritmos de jogo, conseguiram uma melhor ligação ao ataque, evidenciaram ainda outra segurança nas transições defensivas. Se é certo que o P. Ferreira esteve abaixo do esperado (e foi o próprio treinador que o assumiu), houve muito mérito no triunfo verde e branco pela forma como conseguiu criar mais aproximações de perigo e como teve outra coesão no plano defensivo para reduzir os espaços dos atacantes adversários. Agora vinha outro teste mais complicado e sem margem de erro – em 90 ou 120 minutos estava em jogo uma presença na fase de grupos da segunda prova europeia, com tudo aquilo que isso significa em termos desportivos, financeiros e de prestígio.

Recuando até dezembro do ano passado, altura em que o LASK Linz bateu na Áustria o Sporting, quase tudo teve uma volta de 180º em Alvalade. A começar, o treinador. Era Silas, passou a ser Rúben Amorim. Depois, a ideia de jogo e o esquema tático. Era uma 4x2x3x1 ou 4x3x3 que podia passar a 4x4x2, passou a ser um 3x4x3 que muito raramente encontra um assumido plano B. Por fim, os próprios jogadores – em relação a essa partida, onde os leões fizeram descansar algumas unidades, sobra apenas Coates entre os titulares. Desde que chegou de Braga, Amorim teve dez encontros para ir testando opções para esta época ao mesmo tempo que consolidava uma nova filosofia de jogo que necessitava de rotinas para testar a sua fiabilidade. Em paralelo, foi obrigado a resgatar o estado anímico de um grupo fustigado por uma sucessão de maus resultados na época com mais derrotas de sempre da equipa. Chegava o próximo passo, mais difícil que os outros: a regularidade. E caiu tudo.

Jogando contra o quarto classificado da última liga austríaca, o Sporting teve uma exibição de terror que ainda aparentou ser menos má numa primeira parte onde saiu empatado mas fez apenas dois remates ao longo de 45 minutos antes de 11 minutos fatais de horror que decidiram o encontro. Os erros individuais foram-se somando, as possibilidades de recuperação ficaram subtraídas, multiplicaram-se os problemas. Agora vão dividir-se as opiniões mas, contas feitas, a pesada goleada em Alvalade frente a um adversário que está longe de ser um colosso do futebol europeu terá impacto. Desportivo, financeiro, reputacional. E se é verdade que a expulsão (que pode ser discutível) de Coates foi determinante, fica longe de explicar tudo o que se passou ao longo de 90 minutos numa equipa e sobretudo num clube que mantém latente uma estranha veia autofágica (4-1).

Apesar dos regressos de Luís Maximiano ou Pedro Gonçalves, Rúben Amorim preferiu dar um voto de confiança à equipa que venceu em Paços de Ferreira e promover apenas uma alteração forçada (e esperada), com a saída do lesionado Jovane Cabral para a estreia como titular de Nuno Santos. Com isso manteve o mesmo desenho na frente, com Vietto como falso avançado permitindo que Tiago Tomás e Nuno Santos pudessem abrir mais nas alas ou fazerem as diagonais explorando a profundidade. E foi dessa forma que tentou chegar em duas /três ocasiões à baliza contrária no arranque do jogo, com o LASK Linz bem mais subido nas suas zonas de pressão a querer impedir a saída a construir a partir de trás dos leões contra um Sporting que preferia baixar um pouco mais sem bola para ter depois o espaço para poder sair em velocidade e sair em profundidade.

As intenções podiam ser boas, as suas aplicações na prática é que nem por isso. Com Pedro Porro em destaque desde início e a dupla de médios Wendel e Matheus Nunes com capacidade para esticar jogo em posse, não houve um único remate nos dez minutos iniciais nem sequer uma única falta (algo que provavelmente nem na Premier League). No entanto, e na primeira oportunidade, o golo surgiu e para a formação austríaca: na sequência de um canto do lado direito que nasce de uma má abordagem após lançamento lateral, houve um desvio inicial ao primeiro poste e Trauner surgiu do lado contrário a desviar para o 1-0, num lance semelhante ao que já tinha acontecido na Áustria quando ambas as equipas se defrontaram em dezembro (e, já agora, no último jogo).

À semelhança do que tinha acontecido na última época, o Sporting via-se em desvantagem no marcador frente ao LASK Linz. À semelhança do que tinha acontecido na última época, o Sporting não reagiu de imediato. Todavia, e partir do momento em que percebeu que bastava conseguir sair da primeira zona de pressão austríaca para ganhar metros com relativa facilidade, o encontro foi mudando de características, com Schlager a evitar o golo de Vietto após uma grande combinação com Tiago Tomás (23′). Gruber, num tiro de pé esquerdo de meia distância, ainda deixou a ameaça a Adán mas, mesmo sem criar grandes oportunidades, os leões tinham retirado o controlo do jogo aos visitantes, passando a marcar ritmos e chegando mesmo ao empate em cima do intervalo: Nuno Santos, que até aí tivera uma exibição falhada, foi ao lado direito, cruzou com o pé menos habitual e colocou a bola direitinha na cabeça de Tiago Tomás que só teve de desviar do guardião austríaco (42′).

O segundo tempo começou sem alterações mas com nova viragem nas principais faces do jogo, não só pelo ritmo menos intenso e pelo menor risco mas também pela capacidade que o LASK Linz recuperou para condicionar a posse dos leões, que foram encontrando menos espaços e linhas de passe do que tinham conseguido na reação à desvantagem na primeira parte. Ranftl, numa segunda bola à entrada da área após corte de Coates, tentou a meia distância mas o remate, forte, saiu à figura de Adán (56′). Cada bola que Tiago Tomás conseguia receber, mesmo de costas, sofrendo depois falta ou aguentando para a subida dos companheiros, era um momento importante para a formação verde e branca “respirar” mas foi nessa fase que se viu novamente a perder: cruzamento largo da direita, falha de Porro de cabeça e Raguz, nas costas, a rematar para o 2-1 (58′).

Começavam aí 11 minutos de horror para o Sporting, que passou de empatado a goleado com uma expulsão e muitos protestos pelo meio em dois lances com Tiago Tomás fora da área e Nuno Santos já na área (sendo que pelo meio Luís Neto arriscou e muito o segundo amarelo com uma cotovelada num lance pelo ar): Coates viu cartão vermelho num lance onde o árbitro entendeu que antes de cortar a bola rasteirou Raguz quando seguiria isolado para a baliza (63′), Michorl marcou na sequência desse livre colocando a bola no lado de Adán que tentou adivinhar o remate e ficou mal na fotografia (65′) e Gruber, na sequência de uma perda de bola no corredor central que permitiu um passe em profundidade, aumentou para 4-1 com um grande chapéu (69′).

Rúben Amorim ainda lançou Pedro Gonçalves, Sporar e Antunes mas, a perder por 4-1 e com menos um em campo, pouco ou nada havia a fazer. E até foi o LASK Linz que ficou duas vezes muito próximo de marcar mais um e carregar ainda mais a humilhação sofrida pelos leões, na primeira ocasião salva por Adán e na segunda com Plojen a atirar a rasar o poste quando estava isolado na área. A certa altura deu mesmo ideia de que haveria instruções para que a equipa tivesse outra capacidade de manter a posse, mesmo que não conseguisse jogar de forma vertical para atacar a baliza contrária. Quando nada o fazia prever, o Sporting caiu com estrondo quando não podia falhar. E este é um encontro que poderá marcar o resto da época, tendo em conta as consequências desportivas, financeiras e de reputação que a ausência da fase de grupos da Liga Europa acarreta.