Os especialistas alertaram e praticamente todos os intervenientes da noite eleitoral o admitiram: registou-se este domingo o valor mais elevado de abstenção em eleições presidenciais em 45 anos de democracia. Os fatores eram muitos e conhecidos: um pico de infeções por coronavírus na pior fase de toda a pandemia da Covid-19 (com o medo da infeção nos aglomerados junto à mesa de voto os milhares de portugueses confinados); a forte convicção de que a eleição estava decidida à partida, em benefício de Marcelo Rebelo de Sousa; a atualização dos cadernos eleitorais com o recenseamento automático de todos os emigrantes portugueses no estrangeiro, aumentando significativamente o universo eleitoral e acrescentando um grande número de pessoas entre as quais a abstenção é habitualmente elevada; e até o mau tempo.

Até este domingo, o recorde de abstenção em presidenciais remontava a 2011, ano em que Cavaco Silva foi reeleito. Nessa eleição, 53,5% dos eleitores inscritos não foram votar. Este domingo, aconteceu aquilo que os especialistas temiam: 60,51% dos eleitores inscritos não usaram o seu direto de voto.

Em número absoluto de eleitores, foi a primeira vez que o número de eleitores que não votaram foi superior a 6 milhões. O recorde anterior era o de 2011: nesse ano, 5.164.500 eleitores inscritos não votaram; em 2016, na primeira eleição de Marcelo Rebelo de Sousa, 5.000.819 eleitores não votaram. Aquelas foram as únicas duas eleições em que o número de eleitores a faltar às urnas superou os 5 milhões. Antes, entre 1976 e 2006, a abstenção esteve sempre abaixo dos 5 milhões de eleitores ausentes.

Devido à situação particular em que as presidenciais decorreram, a abstenção foi uma das principais preocupações dos especialistas e da esfera política durante a campanha e ao longo do próprio domingo de eleições. Ao meio-dia, a taxa de afluência às urnas acalentava a esperança de que, afinal, a abstenção não fosse tão elevada como se temia: até ao meio-dia, já tinham votado 17,07% dos eleitores inscritos, um valor acima dos 15,82% registado à mesma hora nas eleições de 2016.

Foi a maior afluência às urnas registada até ao meio-dia desde as presidenciais de 2006, que elegeram Cavaco Silva. Contudo, através da rede social Twitter, o cientista político Pedro Magalhães, especialista em sondagens, alertava: “Calma com grandes conclusões com a afluência às 12h”. E acrescentava: o valor às 16h será “muito mais sólido”. De facto, às 16h, a tendência pareceu inverter-se. Até às quatro da tarde tinham votado 35,44% dos eleitores inscritos, um valor inferior ao registado à mesma hora em 2016. Há cinco anos, pelas 16h já tinham votado 37,69% dos eleitores inscritos. Um facto ajudava a explicar que o valor registado às 12h possa ter dado uma imagem enganadora da real afluência às urnas na eleição: aquele valor já incluía o número de eleitores que votaram antecipadamente, no fim de semana passado. Mais de 246 mil pessoas inscreveram-se para o voto antecipado, um número recorde na democracia portuguesa.

Pedro Magalhães assinalou ainda uma outra conclusão que já podia ser retirada a partir destes valores. “Com uma afluência de 35,4% às 16h, já sabemos uma coisa: um ciclo foi interrompido. O ciclo iniciou-se em 2001, através do qual eleições com presidentes candidatos tinham participação muito inferior à eleição anterior. Esse ‘muito inferior’ não vai ocorrer”, escreveu o especialista.

A abstenção recorde não se reflete, contudo, numa queda proporcionalmente abrupta do número de votantes. Na verdade,

O fenómeno explica-se, essencialmente, pela chamada “abstenção técnica“, motivada pela atualização automática dos cadernos eleitorais. O universo de eleitores no círculo da emigração aumentou significativamente este ano devido ao recenseamento automático de todos os portadores de cartão de cidadão. Isto fez com que o número de eleitores inscritos no estrangeiro aumentasse de modo considerável — e é no estrangeiro que a abstenção costuma ser mais elevada, devido aos constrangimentos associados à votação — em embaixadas e consulados.

Enquanto em 2016 o total de eleitores inscritos era de 9.741.377, este ano foram 10.856.010 — mais de um milhão de eleitores adicionais em comparação com há cinco anos. Apesar de a abstenção ter ficado 9,17 pontos percentuais acima de 2016, o número de votantes ficou apenas 479 mil abaixo dos votantes de 2016.