1 As lutas internas do PS constituem um dos desenvolvimentos mais interessantes, e inesperados, da política nacional. É inesperado porque o PS ganhou as eleições há menos de um ano, goza de sondagens perto da maioria absoluta, o PSD não faz oposição, o Presidente da República está alinhado, e as esquerdas radicais estão domesticadas. Mais estranho ainda, o governo pede unidade aos portugueses, mas os socialistas andam divididos.

Há duas conclusões possíveis para esta divisão inesperada (e, acrescente-se, irresponsável) do PS. Começa a notar-se, nas mais recentes prestações públicas, um nervosismo e um desconforto claros no PM e noutros responsáveis socialistas. A pandemia não está controlada, a recessão económica será maior e mais dura do que se previa e o dinheiro milagroso da Europa vai demorar mais tempo a chegar do que se esperava. Como diz o nosso bom povo, em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Entrámos no período das divisões e das acusações.

A segunda razão diz respeito ao posicionamento do PS no sistema partidário português. A formação da geringonça em 2015 foi um abalo politico enorme, o qual também afecta o PS. Para António Costa e os seus, a geringonça foi sempre um recurso táctico para chegar ao poder. Para outros, como Pedro Nuno Santos, a geringonça significou uma oportunidade para uma purificação ideológica do PS. Para Costa, o PS é um partido social democrata que deve ganhar eleições ao centro. Para PNS e os jovens turcos que o acompanham, o PS é um partido populista e socialista que deve liderar toda a esquerda.

Estas visões distintas sobre a natureza do PS manifestaram-se nas declarações de PNS contra o candidato Marcelo Rebelo de Sousa. O país ficou a saber que, se não houver um candidato do PS, Costa votará em Marcelo e PNS votará em Marisa Matias. Costa mantém-se fiel à tradição moderada do PS Soarista. PNS quer impor uma revolução no seu partido, aproximando-a das extremas esquerdas.

Se tiver coragem política, PNS deve apresentar-se aos portugueses com as suas ideias. Deve lutar pela distinção clara entre a esquerda e a direita, contra o bloco central entre São Bento e Belém. Deve mostrar que o PS pode liderar todas as esquerdas, em vez de se conformar com o voto no candidato do Bloco. PNS pode resolver o problema da ausência de um candidato socialista a Belém. Se for corajoso, será o candidato socialista a Belém. Se não for candidato, é apenas mais um a subordinar as convicções ideológicas aos cálculos da táctica política.

A candidatura de PNS seria ainda uma óptima notícia para Marcelo, mesmo que ele não o saiba. Como em quase tudo, a competição é muito boa em política. Obrigaria o actual Presidente a sair da sua zona de conforto e a combater a sério. Teria que mostrar capacidade para fazer uma coligação eleitoral do centro à direita, não por falta de comparência do PS, mas contra um candidato socialista a sério. Em política, é mais importante uma vitória difícil mas mobilizadora, do que uma vitória fácil sem qualquer entusiasmo. Quanto a PNS, se tivesse um resultado semelhante ao alcançado por Costa nas legislativas, mesmo perdendo, seria o próximo líder do PS.

2 Em todas as discussões sobre as acusações a António Mexia, há um ponto ignorado por todos. Quando Pinho era ministro, o Estado era um acionista decisivo da EDP (tinha uma golden share). Esse é o problema de fundo: o Estado acumular o lugar de acionista e as funções de regulador. Ora, todos falam como se a EDP fosse na altura uma empresa inteiramente privada a quem o governo fez favores. Não, os interesses da EDP e do Estado acionista estavam alinhados. Olhem assim para o que se passou e as acusações parecem muito diferentes.

Havia, além disso, um forte consenso nacional sobre a necessidade de valorizar a EDP o máximo possível, e rapidamente, para vender a participação do Estado por um preço elevado. Foi o que aconteceu quando a China Three Gorges comprou a participação do Estado na EDP. Fazer de António Mexia e de Manso Neto os bodes expiatórios de uma estratégia nacional é injusto.

Por razões profissionais, converso frequentemente com gestores financeiros que investiram, investem ou poderão investir na EDP. Posso testemunhar a excelente reputação da EDP e de Mexia e de Manso Neto entre os investidores nas energias renováveis. A EDP é um caso de sucesso na Europa e nos Estados Unidos. Num momento em que é fácil, e tentador, atacar Mexia e Manso Neto, julgo que é da mais elementar justiça deixar uma palavra de elogio ao trabalho que fizeram na EDP e na EDPR. É uma das poucas histórias de sucesso empresarial em Portugal na última década.