Antes de começar a ler este “quente”, uma nota — não vá o leitor ser induzido em erro: o que aqui vou descrever de seguida foi de facto bom, foi ótimo. Mas foi a nossa perdição. Com esta salvaguarda feita — que explicarei mais abaixo –, deixe-me dar-lhe um pouco de contexto: todos os anos, a Web Summit tem várias conferências temáticas espalhadas pelos pavilhões da FIL, sendo que o palco principal e a sala de imprensa se concentram no Altice Arena. Quer isto dizer que em cinco anos foram raríssimas as vezes em que me aventurei pela FIL fora. Não que os temas não fossem interessantes, eu é que não tinha tempo para fazer tanta caminhada. Com esta tele-Web Summit o problema ficava resolvido: não tínhamos de ir a lado nenhum, só tínhamos de mudar de canal. E foi o que fizemos.

Graças à facilidade e aparente proximidade do ecrã, tão depressa estávamos a ouvir António Costa, como estávamos a ouvir Ynon Kreiz, presidente da Matel, a falar sobre os 75 anos da Barbie;  Yeardley Smith, a atriz que dá voz à Lisa dos “The Simpsons” a falar sobre Donald Trump; ou a assistir à dupla de atores que protagonizaram a série “Breaking Bad”, Aaron Paul e Bryan Cranston, a fazer um mezcal (bebida alcoólica mexicana) em direto. Em ano de pandemia e de crises várias, um grande ámen à diversidade. Obrigada. Era o que queríamos. Foi o que tivemos. Mas era preciso serem 10 horas?

A alegria que sentimos com a perspetiva de diversidade, a partir do conforto do nosso lar e pantufas, foi tão breve quanto as intervenções de Filomena Cautela — depressa se desvaneceu. Bastou olhar para o relógio e perceber que, afinal, pouco passava das duas da tarde, mas o nosso cérebro já tinha decidido que quando olhássemos para o ecrã veríamos tudo desfocado (sim, falta de óculos, bem sabemos). O primeiro dia de Web Summir online contou com perto de 10 horas ininterruptas de conferências — sem parar, portanto –, em mais de cinco canais temáticos diferentes. E não sei se foi do nosso F.O.M.O [Fear of Missing Out — medo de perder o que se está a passsar] ou se foi mesmo um abuso de horas de conferências, mas quando chegámos às 21h, fiquei confusa: Fernando Medina não falou ontem? Não, foi de manhã.

A verdade é que foi demais — tanto tempo seguido num evento tão diversificado e exigente a nível visual acabaram por fazer com que o cansaço (isolado e não coletivo, o que também faz a diferença) nos fizesse olhar para Gwyneth Paltrow, no final do dia, como se fosse a nossa vizinha do segundo andar — Olá, então? Está boa? Vai-se andando. A Gwyneth merecia mais, mas nós também merecíamos apenas um dia de Web Summit (e não dois) e, ainda assim, estamos aqui perto das 11h da noite a fazer contas às coisas que nos escaparam. Era preciso compensar a ausência da experiência offline de alguma maneira. Está certo. Mas menos é mais, Paddy Cosgrave. Menos é mais.

Foi um dia de sobressaltos, como qualquer arranque da Web Summit. Tudo igual, portanto. Mas, apesar da oscilação da temperatura e da ambivalência de emoções, a verdade é que não houve nada que nos tivesse feito saltar da cadeira — com exceção do momento em que revimos “Jessie Pinkman” e “Walter White”, mas isso já não teve propriamente a ver com a Web Summit. Amanhã voltamos a medir as temperaturas. Esperamos estar a ver melhor por esta hora, menos desfocado pelo menos (passando a redundância).