Quero agradecer a todos aqueles que me acompanharam nesta corrida. A verdade é que eu não tinha nada para lhes oferecer a não ser a força das minhas ideias e dos meus valores, em que acredito. Obrigado pela vossa energia e por terem feito do meu sonho o vosso sonho.

Quando correram lado a lado em Belém, numa ação simbólica de campanha para marcar a corrida à Presidência da República, João Cotrim de Figueiredo tinha Tiago Mayan Gonçalves junto a si quando assumiu que esta candidatura apoiada pela Iniciativa Liberal tinha riscos. Naquele momento, falou dos que achavam “que a a Iniciativa Liberal não deveria ter um candidato porque era um partido demasiado pequeno”, dos que consideravam que o candidato “não estava preparado, não tinha notoriedade nem experiência mediática” pelo que a aposta era um tiro no pé.

Já naquele momento, na sequência de elogios de comentadores e analistas à prestação do candidato nos debates, João Cotrim de Figueiredo acreditava que os céticos estavam enganados. E no comício online de encerramento da campanha, na sexta-feira, o presidente da Iniciativa Liberal voltava a recordar os “riscos” da aposta: o “risco de um mau resultado”, a “inexperiência da nossa estrutura de campanha”, o candidato não ser “conhecido dos portugueses”.

Tiago Mayan Gonçalves reconhece isso tudo no discurso pós-eleições: diz que não tinha “nada a oferecer” e que foi a força das suas ideias e valores que lhe deu um bom resultado. Mayan pode não estar a dizer que foram apenas as ideias que lhe valeram os 3,2% — quando se refere à “força”, pode também estar a referir-se à forma e à convicção como as defendeu nas últimas semanas.

Avancei porque percebi que havia um espaço político em Portugal que se arriscava a ficar sem voz nestas eleições. Eu não o podia permitir. A avaliar pelos resultados desta noite, parece que tomei a decisão certa. Sem esta candidatura, milhares de portugueses poderiam ter sido impedidos de validar uma alternativa liberal, humanista e tolerante e por isso valeu a pena.

Tiago Mayan puxa dos galões dos seus milhares de votos para vincar que o motivo que o levou a avançar está por demais explicado — basta olhar para os resultados. Ao todo foi o preferido de 134.427 eleitores, quando a IL nas legislativas de 2019 tivera 67.681 votos.

É verdade que desta vez, ao contrário do que aconteceu nas legislativas de 2019, o CDS não se apresentou a jogo com candidato próprio, apoiando Marcelo Rebelo de Sousa para a Presidência e dando margem a Mayan para convencer eleitorado centrista e até “laranja” desavindo com Marcelo (esse eleitorado existia). Mas também é verdade que em 2019 André Ventura e o Chega captaram “apenas” 67.826 votos, maioritariamente à direita, e o crescimento esperado nestas eleições — acabaram com quase meio milhão de votos — podia esvaziar o eleitorado que porventura existiria entre Marcelo e Ventura.

O candidato estava convencido que não: diz que “havia um espaço político em Portugal que se arriscava a ficar sem voz” e esse espaço alternativo ao socialismo e ao comunismo estava precisamente entre Marcelo e Ventura, entre o “rigorosamente ao centro” e uma direita extremada e musculada, mesmo que Marcelo ganhasse à primeira volta e Ventura tivesse mais de 10%.

Mayan diz agora que o bom resultado lhe dá a perceção que a análise foi correta. E quando diz que “sem esta candidatura, milhares de portugueses poderiam ter sido impedidos de validar uma alternativa liberal, humanista e tolerante”, pode estar a lembrar que os seus votos de eleitores insatisfeitos com Marcelos iriam ou para a abstenção ou para uma alternativa que não é nem liberal, nem humanista, nem tolerante.

Se uma maioria dos seus votos acabasse, por exemplo, no colo de André Ventura — por este ficar sozinho entre os desavindos com Marcelo que não são nem do PS nem do BE e PCP — seria o suficiente para o líder do Chega ter uma vitória ainda mais retumbante e acabar à frente de Ana Gomes. E a “reconfiguração da direita” ou do “espaço não socialista” (porque a Iniciativa Liberal não se reivindica de direita) de que se fala depois das eleições teria outros contornos.