(em atualização)

Era a última etapa antes da conquista do sonho. Um sonho que teve uma deslocação à Bósnia e outra à Turquia, que teve três golos marcados e apenas um sofrido, que teve uma decisão por grandes penalidades e que culminava esta quinta-feira, com o quinto jogo em duas semanas. Em resumo, e acrescentando-se a deslocação a Tondela para o Campeonato, o Rio Ave percorreu 13.600 quilómetros nos últimos 14 dias. Um período intenso e exaustivo que podia culminar na primeira grande alegria da temporada — finalmente em Vila do Conde.

Esta quinta-feira e depois de afastar Borac e Besiktas, o Rio Ave recebia o AC Milan e precisava de ganhar para chegar à fase de grupos da Liga Europa. No playoff de acesso ao quadro final da competição, novamente discutido em apenas um jogo, os vilacondenses tinham pela frente o desafio mais complicado até então e um plantel que vale mais 398 milhões de euros do que o da equipa portuguesa. Os italianos, que não conquistam qualquer troféu há quatro anos, estão numa fase de reconstrução e regresso às vitórias a que habituaram o futebol europeu — chegar à Liga Europa era, obviamente, parte desse processo.

Mané pediu para irem com tudo e a equipa respondeu: Rio Ave vence Besiktas nos penáltis e segue em frente na Liga Europa

Ainda assim, o treinador Stefano Pioli ainda não podia contar com Ibrahimovic, que testou positivo para a Covid-19 na semana passada e ainda não foi dado como apto, e tinha baixas de peso em Ante Rebic e Romagnoli, duas das figuras da equipa. Vindo de duas vitórias nas duas primeiras jornadas da Serie A, contra Bolonha e Crotone, o AC Milan eliminou ainda o Shamrock Rovers e o Bodø/Glimt para chegar ao playoff. E o que disse Pioli sobre o Rio Ave?

“Esta deve ser uma oportunidade para a equipa crescer. Temos de demonstrar as nossas qualidades perante uma equipa técnica. Precisamos de estar ao mais alto nível, sermos agressivos, mas ao mesmo tempo lúcidos para entendermos quando devemos esperar. Eles querem ter a posse de bola e nós temos que o evitar. O Rio Ave é mais forte que o adversário anterior”, disse o treinador italiano, que abordou ainda o facto de poder voltar a contar com Rafael Leão, que falhou o início da época por estar infetado com Covid-19 mas está agora de regresso à equipa.

Já Augusto Gama, adjunto de Mário Silva, garantiu que o Rio Ave quer voltar à fase de grupos de uma competição europeia. “Derrotar uma equipa como o AC Milan seria um feito histórico na vida do clube e para todos os jogadores. O AC Milan tem um palmarés muito grande no futebol europeu mas nenhuma equipa nos assusta e sabemos que temos valor. Vai criar-nos bastantes dificuldades mas estamos preparados para elas, da mesma forma como conseguimos ultrapassar uma excelente equipa na Turquia. É só um jogo e tudo pode acontecer”, disse o treinador. E assim, o Rio Ave tinha o último obstáculo para chegar à fase de grupos da Liga Europa apenas pela segunda vez na história, depois da estreia de 2014/15.

Assim, Mário Silva fazia quatro alterações face à equipa que no fim de semana empatou com o V. Guimarães: saíam Pedro Amaral, Jambor, André Pereira e Meshino, entravam Borevkovic, Filipe Augusto, Lucas Piazon e Bruno Moreira. Matheus Reis, o habitualmente titular lateral esquerdo dos vilacondenses, está com um processo disciplinar interno depois de ter recusado jogar para o Campeonato no domingo — por estar descontente com o atraso nas negociações de uma transferência para o Olympiacos — e era a principal baixa na equipa portuguesa. Do outro lado, Brahim Díaz e Tonali eram ambos suplentes, assim como Rafael Leão, e Pioli apostava na titularidade de Daniel Maldini, filho de Paolo, neto de Cesare e dono de um apelido histórico em Milão.

Numa primeira parte muito cinzenta que acabou sem golos, o AC Milan teve sempre mais bola, de forma previsível, mas pouco ou nada conseguiu fazer com essa posse. Os italianos foram controlando as ocorrências do jogo mas nunca assustaram propriamente Kieszek, terminando o primeiro tempo com seis remates mas todos desenquadrados e realizados muito longe da baliza. Em oposição, o Rio Ave manteve um bloco baixo e uma lógica de expectativa durante 40 minutos e só subiu no terreno nos últimos cinco antes do intervalo, com Carlos Mané a aproveitar para assinar o único remate enquadrado da partida até então, obrigando Donnarumma a uma boa defesa (41′).

Ao intervalo, Pioli trocou Castillejo por Brahim Díaz e o AC Milan conseguiu ultrapassar a pouca objetividade do primeiro tempo e abrir o marcador logo nos primeiros minutos. Na sequência de um canto batido na direita e depois de um primeiro alívio, Saelemaekers apareceu à entrada da grande área a rematar forte e sem hipótese para Kieszek (51′). Depois do golo sofrido, o Rio Ave teve uma boa reação e assumiu a dianteira da partida — numa dinâmica algo permitida pelos italianos, que escolheram entregar a iniciativa à equipa portuguesa e só atacar em situações de transição rápida e superioridade numérica.

Perto dos 70 minutos, Mário Silva mexeu pela primeira vez na equipa e tirou Diego Lopes para lançar Francisco Geraldes, uma troca por troca que não alterou em nada o sistema tático dos vilacondenses. Pioli reagiu e colocou Rafael Leão em campo, com Daniel Maldini a sair, e foi o avançado português a sofrer uma falta à entrada da grande área que deu origem a um livre perigoso de Çalhanoğlu (70′). Mas seria a alteração de Mário Silva a tornar-se fulcral: na sequência de uma boa combinação entre Mané e Piazon, com assistência final do brasileiro, Geraldes atirou de primeira um pontapé muito violento que só parou no fundo da baliza do AC Milan e empatou o resultado (72′).

O treinador português voltou a mexer, tirando um esgotado Tarantini para lançar Jambor e reforçar o meio-campo e o motor da equipa e ainda colocou Gelson Dala em campo. No final dos 90 minutos de tempo regulamentar, o empate mantinha-se — apesar de Aderllan ter ficado muito perto de acabar com a eliminatória já nos descontos (90+1′) — e as duas equipas prosseguiram para o prolongamento em Vila do Conde. E o prolongamento não poderia ter começado da melhor maneira para o Rio Ave.

Logo nos primeiros instantes do tempo extra, Gelson Dala apareceu em velocidade na esquerda, beneficiou de um ressalto quando tentou combinar com Mané e ficou isolado na cara de Donnarumma: rematou cruzado e rasteiro e a bola só parou no fundo da baliza dos italianos (91′). O Rio Ave reagiu muito bem à vantagem e segurou o jogo sem perder o controlo das ocorrências e o AC Milan só ficou perto de empatar já nos últimos instantes da primeira parte do prolongamento, na sequência de um livre direto de Bennacer que Kieszek afastou (105′).

Nos últimos 15 minutos do jogo, Gabrielzinho ainda entrou e tudo parecia encaminhado para a extraordinária vitória do Rio Ave. Mas no derradeiro minuto do prolongamento, Borevkovic colocou a mão à bola na grande área, viu o segundo cartão amarelo e ofereceu de bandeja o empate ao AC Milan, com Çalhanoğlu a converter a grande penalidade (120+2′) e a atirar todas as decisões para os penáltis. Nos 11 metros e numa autêntica maratona, as duas equipas precisaram de 24 penáltis para decidir o resultado — no fim, depois de Nélson Monte, Francisco Geraldes e Kieszek desperdiçarem a oportunidade de garantir o apuramento, foi Aderllan a falhar o remate que deu a vitória aos italianos.

O Rio Ave ficou à beira de oferecer um dia histórico a Vila do Conde e caiu de pé contra um AC Milan cujo plantel vale quase mais 400 milhões de euros do que o dos vilacondenses. Francisco Geraldes e Gelson Dala não deixam de ser heróis, Kieszek não deixa de ter defendido um penálti que podia ter sido decisivo, Mário Silva não deixou de orquestrar uma campanha europeia impressionante: mas no fim, venceu a frieza italiana e o azar da equipa portuguesa.