Portugal

Ventura traça fasquia de 15% para legislativas e avisa PSD: “Não haverá Governo sem o Chega”

Nunca usou os termos ‘demissão’ nem ‘vitória’, mas admitiu que vai “devolver” a palavra aos militantes do Chega e vincou que “toda a noite eleitoral” foi sobre si e o partido. Para contornar a derrota nos três objectivos a que se propôs nestas eleições, André Ventura acabou a noite a fazer uma fuga para a frente, com o PSD e o CDS como alvo e com os olhos num resultado de 15% nas próximas legislativas: “PSD ouve bem: não haverá Governo em Portugal sem o Chega.”

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Com quase meio milhão de votos (496.583, quando faltavam apenas três consulados por apurar) que “rompeu o espectro da direita tradicional”, vincou o candidato, assim como o segundo lugar em onze dos dezoito distritos do continente – Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Leiria, Santarém, Portalegre, Évora, Beja e Faro – e nos Açores, André Ventura não conseguiu a segunda volta, nem ficar à frente de Ana Gomes e, por isso, também não conseguiu ter mais votação que toda a esquerda. Mas na intervenção final fez questão de assinalar que teve mais votos que Marisa Matias, João Ferreira e Tiago Mayan juntos. “Esmagámos a extrema-esquerda em Portugal”, assinalou.

“Somos firmes no que defendemos. Ficámos e fiquei aquém” do que prometera, assumiu Ventura, para se apressar a especificar que ficou apenas a “algumas décimas de diferença da candidata que representa o pior que Portugal tem, a esquerda mais medíocre e mais colada às minorias”. E afirmou: “Esse era um dos grandes objectivos e não fugirei à minha palavra. Devolverei a palavra aos militantes para dizerem se querem a continuidade deste projecto à frente do Chega.” Não falou em prazos, mas é certo que marcará eleições menos de um ano depois das últimas – que também tinham sido forçadas por si.

Numa intervenção de 14 minutos, Ventura avisou que a mensagem desta eleição, mais do que para a esquerda, foi “para o coração da direita e do centro-direita”. “Não há segundas vias depois desta noite, não há ilusões nem grandes nem pequenas”, disse, acrescentando que apesar de todos os ataques de que foi alvo nos últimos tempos, “ficou claro que não haverá Governo em Portugal sem que o chega seja parte fundamental desse Governo”. E a Rui Rio, que apontou o dedo ao falhanço da esquerda, Ventura não se coibiu de avisar directamente, repetindo: “Não há volta a dar: não haverá Governo sem Chega e a Quarta República está cada vez mais perto de acontecer. PSD ouve bem: não haverá Governo em Portugal sem o Chega.” Um partido que, lembrou, em ano e meio passou de um “movimento desconhecido com força residual, a fundamental e indispensável”.

À saída, rodeado por jornalistas, haveria de definir os 15% como um tecto para as próximas eleições, disse que a direita como a conhecemos “em termos políticos terminou hoje” e insistiu que em breve o Chega será mesmo a segunda força política no país: “Fica o aviso ao PSD e ao CDS.”

O líder do Chega, que teve Marine Le Pen no arranque da campanha e o apoio declarado de Salvini (depois de não ter podido viajar para Portugal no dia 15), disse que recebeu “chamadas da maioria dos líderes do ID Party”, a família europeia do Chega.

No seu discurso, atacou ainda as empresas de sondagens, a quem acusou de “enganar os eleitores e manipular o sentido de voto” e resumiu: “Não só o batom de Marisa Matias não lhe permitiu crescer, nem Ana Gomes descolou, e João Ferreira nem no Alentejo me ganhou.” Quanto a este último, Ventura disse ter “quebrado o mito das terras comunistas”, já que nesses distritos mais de esquerda, como os alentejanos de Portalegre (onde obteve, Évora e Beja, nem o PCP ficou à sua frente. “Mesmo no Alentejo e em zonas profundamente comunistas, o Chega mostrou que esse eleitorado é seu e vai ser seu nos próximos anos.”

Na sala do Hotel Marriott, em Lisboa, onde se concentrou a comitiva de André Ventura, não houve festa apesar de o mandatário ter começado por dizer, às 20h10, que estavam “confiantes no segundo lugar”. Mas o ambiente foi mudando. Poucos minutos antes das 22h, quando o site com os resultados mostrava a reviravolta, com Ventura a descer para o terceiro lugar, a assessoria avisou que o candidato faria apenas uma declaração sem direito a perguntas dos jornalistas.

As intervenções dos restantes candidatos foram-se sucedendo nas televisões e Ventura nem sinal. A dada altura, soube o PÚBLICO, Ventura terá pedido para ficar sozinho com a mulher, tendo a equipa saído da suíte que havia ocupado desde as 18h30. Depois os elementos mais chegados ao candidato voltaram a subir quando já Ana Gomes se preparava para falar às televisões.

As 70 cadeiras do salão da cave do Marriott reservadas aos apoiantes estiveram vazias quase até à chegada de Ventura - estes conversavam em grupos nas escadas e na zona do hall do hotel. A dada altura, a assessoria até avisou os jornalistas que Ventura só desceria quando estivessem “todos os votos apurados”. Mesmo já sabendo da derrota, Ventura entrou na sala de sorriso aberto e a bater palmas. O discurso, tal como muitos da campanha, foi entrecortado por acordes do seu hino e gritos de “Ventura!” e “Chega!”.

Mas se a vitória não veio das urnas, Ventura sabe que toda a noite eleitoral foi sobre si e o medo de ver a sua contagem subir vertiginosamente. “Um dia, mais breve que imaginamos, este Governo miserável cairá e poderemos levar o país à transformação que sonhamos. (…) Obrigado por podermos dar um enorme estalo no sistema e amanhã será uma avalanche que nos levará ao Governo. Contem connosco porque estaremos aí para a luta.”

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