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Estudante de medicina de 20 anos tira a própria vida; Família acusa faculdade de pressão psicológica

Segundo relatos da irmã, Mayra Boscari ficou três dias sem dormir estudando para as provas e teve crises de pânico

No último dia 5 de outubro, a estudante de medicina Mayra Boscari, de apenas 20 anos, foi encontrada praticamente morta após tomar diversos remédios. Mesmo a irmã levando para o hospital, não foi possível salvá-la. A família acusa os professores tortura psicológica. 

Nas redes sociais, Mayara Boscari, irmã gêmea que fazia faculdade junto com Mayra, e mais outros colegas de turma denunciaram a maneira como alguns professores se relacionavam com estudantes. De acordo com todos eles, a “humilhação, a opressão, o medo, o desacato, o rebaixamento moral e a vergonha” eram o ‘modus operandi’ dos docentes.

Em entrevista exclusiva ao site da TV Cultura, Mayara deu mais detalhes de como os professores tratavam os alunos e como ela e a irmã sofreram psicologicamente.

Início do sonho

Mayra e Mayara sempre tiveram o sonho de cursar medicina juntas. Desde novas, compartilharam os mesmos ambientes e faziam questão de estarem próximas uma da outra. Isso fez com que passassem juntas no vestibular.

“Tudo que a gente fazia, fazíamos juntas. Desde de ir para a faculdade até conversar sobre diversos assuntos. Sempre foi assim. A gente se dava bem”, explicou Mayara.

O início do curso foi muito bom. Mayra se tornou a representante da turma e criou uma liga acadêmica para unir os colegas. Além disso, entrou para a equipe feminina de basquete da faculdade.

Mas o que parecia um sonho, acabou virando um pesadelo. A partir do segundo ano do curso, quando as aulas voltaram a ser presenciais, notaram um comportamento diferente dos professores e a maneira como conduziam as matérias.

“A gente não imaginava que o sonho ia se tornar pesadelo. O tratamento era totalmente diferente do que a gente esperava. Os professores competiam quem deixava mais alunos de exame. Mas nós sempre tirávamos boas notas. Mas mesmo assim, percebemos que a gente sofria uma tortura psicológica”, relatou.

A partir do momento que a turma percebeu o que estava acontecendo, a primeira atitude foi ir à coordenação para reclamar dessa postura. Mas os professores não deixavam que isso acontecesse. Segundo Mayara, sempre que algum aluno ia à direção, a tortura se tornava pior.

“Eu cheguei a cursar um ano em outra faculdade de medicina. Eu nunca tinha visto aluno se matar por conta disso. Eu nunca tinha ficado 72 horas acordada estudando. A gente ia fazer prova achando que ia desmaiar. Eu emagreci sete quilos”, contou.

“O terceiro período foi muito difícil. Todo dia, eu mandava foto para meu namorado chorando. Falava que não queria mais viver. Quando os professores falavam, a gente vomitava de nervoso. Era 4h da manhã, eu estudava tremendo e chorando. Nós não estávamos mais aguentando. Não era normal”, completou.

Em um certo momento, Mayara se questionou se o problema era ela e estava exagerando em relação ao comportamento dos professores. Mas, ao consultar colegas e saber que todos passavam pela mesma situação, não teve mais dúvidas que a forma como os docentes ensinavam estava totalmente errada.

Denúncias à coordenação

Com problemas físicos e mentais, as irmãs procuraram a coordenação para buscar uma solução para esse problema. Mesmo com as ameaças dos professores, elas buscaram algum superior. Mas, segundo Mayara, foram completamente ignoradas.

“Contei o que estava acontecendo e disse que não era normal. Deixei bem claro para o coordenador do curso. Ele disse que ia nos ajudar, mas na prática nada aconteceu. Os professores não foram afastados. E um professor em específico sempre recebia reclamação. Mas nada aconteceu”, denunciou.

Para reforçar a reclamação, os pais e a tia das meninas também fizeram reclamações formais para a coordenação. Os parentes perceberam o estado de saúde das estudantes e pediram o afastamento dos docentes e auxílio psicológico.

Posicionamento da faculdade

Em nota, a faculdade comunicou que todas as aulas do curso de medicina, do 1° ao 8º período, foram suspensas até o dia 17 de outubro.

O site da TV Cultura questionou a instituição sobre as acusações feitas pelos alunos e possíveis providências em relação a conduta dos professores. Até o fechamento da matéria, não houve resposta. O texto será atualizado caso haja um retorno. 

Confira a nota na íntegra: 

O Centro Universitário FAG externa todo o seu sentimento neste momento de dor e luto pelo qual estamos passando. Todos os colaboradores da equipe técnico-administrativa e docentes da Instituição estão abalados e compartilham enorme vulnerabilidade.

Expressamos o mais profundo respeito aos familiares, amigos, colegas e a toda comunidade acadêmica. Para preservar a privacidade dos envolvidos, a FAG reserva-se ao direito de não usar das mídias sociais para externar esse sentimento.

O diálogo é permanente, próximo e aberto a todos os pais e acadêmicos.

Próximos passos

A família já está recolhendo todas as evidências para entrar com um processo contra os professores. Na perspectiva de Mayara, o fato da irmã nunca ter apresentado problemas de saúde mental mostra como a faculdade mexeu com o psicológico dela.

Mesmo após todos os acontecimentos, Mayara pretende se formar nessa faculdade para dar uma mensagem de esperança para outros alunos.

“Falo para outros alunos não ficarem mais quietos. Não baixarem a cabeça. Sempre que acontecer algo grave, saírem da sala. Para que a Ma seja a última e todos terem esperança”, finalizou.

Serviços de ajuda 

Atualmente, há inúmeros centros de apoio e grupos de ajuda para pessoas com problemas emocional e prevenção. Um dos mais importantes no Brasil é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que faz atendimento voluntário e de forma gratuita.

Qualquer pessoa que quer e precisam conversar, terá total sigilo por telefone, email ou chat. Ligue 188 ou acesse o site cvv.org.br

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