Paraguay

Medo da vacina domina indígenas na maior reserva de MS, onde 33,9% ainda não tomou a primeira dose


Ainda sob os impactos negativos das “fakes news”, 33,9% dos moradores da maior reserva indígena de Mato Grosso do Sul ainda não tomaram a primeira dose da vacina contra o coronavírus. É o que aponta o relatório mais recente do Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena).

No documento que o Midiamax teve acesso, desde o início da imunização nas aldeias e retomadas (assentamento) indígenas de Dourados, somente 62,9% da população recebeu a primeira dose do imunizante.

Em relação à segunda dose, os dados do Dsei revelam que a situação é ainda pior, com índices ainda mais baixos, uma vez que até o momento apenas (47,8%), totalizando 4.651 pessoas. Entretanto, das cidades que compõem o pólo base de Dourados, Rio Brilhante é o que tem o menor índice de aplicação do imunizante, com somente 30% de indígenas vacinados.

Na realidade, o desempenho de Rio Brilhante com aplicação das vacinas na população indígena de Rio Brilhante é o pior de Mato Grosso do Sul, considerando que 65% ainda não recebeu nem a primeira dose do imunizante.

Passado mais de um ano da pandemia e dos primeiros casos de coronavírus, nas aldeias quase nada mudou. As dificuldades continuam batendo às portas das casas, que na maioria delas ainda abrigam até 9 pessoas em um único cômodo.

Se por um lado faltam moradias, por outro sobram templos evangélicos e grupos de fanáticos negacionistas. Levantamento feitos por estudiosos no assunto, revelam que somente nas aldeias de Dourados existem mais de 80 igrejas das mais diversas denominações.

O que chama a atenção e ao mesmo tempo causa espanto é que de onde deveria brilhar a luz, o que predomina é a escuridão. Além das trevas da ignorância, das promessas que evaporam nas urnas, da fome que não acaba nas cestas pingadas e da água encanada que que só existe em mapas de engenharia guardados nas gavetas, alguns “crentes” propagam estórias inacreditáveis e abaladoras.

‘Marca da Besta’, do ‘Anticristo’

Entre os ‘fakes’ que correm nas aldeias de Dourados, como se fossem rastilhos de pólvoras, um já é bastante conhecido na comunidade. Diz a lenda, que quem tomar a vacina vai virar jacaré. “Essa é uma estória que vem sendo contada há algum tempo e que por mais que pareça uma brincadeira de criança, acabou assustando muitos adultos”, diz uma professora da Aldeia Jaguapiru.

Para não ser hostilizada, a educadora ouvida pelo Midiamax, que prefere ter a identidade preservada diz ainda que se a estória do jacaré, apesar de absurda já assusta, o terror espalhado por determinados grupos, formados na maioria por fanáticos que ainda acreditam que a doença não é real, causa pânico ainda maior.

“Muita gente aqui nas aldeias ficou apavorada depois de ouvir que a vacina é a representação do demônio. Esse tipo de mentira acaba influenciando negativamente e para alguns, diante da pressão, acaba virando verdade”, diz a professora.

Em conversa com outros moradores da Aldeia Bororó, que também faz parte da Reserva Federal de Dourados, a reportagem do Midiamax constatou que a fonte dos boatos não está vinculada somente aos grupos evangélicos. “Faço parte de uma denominação evangélica onde o nosso pastor já está imunizado”, diz outra educadora, ressaltando que todos fiéis foram orientados a tomar a vacina.

Na avaliação do pesquisador da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Neimar Machado de Sousa, a baixa adesão dos indígenas à vacinação está relacionada à vários fatores. Segundo ele, o governo não estava suficientemente preparado para uma vacinação em massa em tão pouco tempo.

Além disso, de acordo com o professor, no contexto da falta de campanhas mais objetivas e esclarecedoras, muitos boatos se espalharam nas aldeias e foram absorvidos por um grande número de pessoas. Estas notícias falsas sobre a vacina propagaram-se bastante entre os evangélicos, bastante numerosos nas aldeias, uma delas de que a vacina seria a ‘Marca da Besta’, do ‘Anticristo’.

Cabeças envenenadas

Se a vacina é o remédio que pode combater a doença, a cartilha é a esperança para restaurar a confiança na ciência, que além de rejeitada por fanáticos negacionistas, é disseminada como um mal que assombra culturas ancestrais.

“Estamos fase de finalização desse material e acreditamos que em breve ele estará nas mãos dos moradores da reserva. Essa cartilha demandou, além de pesquisas exaustivas, esforço e amor ao próximo”, relata o professor da UFG, referindo-se à elaboração de uma cartilha que está em fase de impressão e deverá ser entregue nos próximos dias nas aldeias.

Além dele, que assina o projeto gráfico e também faz parte da organização e edição, a publicação envolveu Leninha Hilton (texto, ilustração, revisão e organização e edição), e Zenilton Fernandes (texto, organização e edição), Nilva da Silva (revisão), Christiane Aedo (revisão), Teodora de Souza (organização e edição) e Veronice Lovato Rossato (organização e edição).

Nas páginas da cartilha escrita em guarani e com versão em língua portuguesa, os educadores procuram decifrar os enigmas que ainda confundem o imaginário de muitos moradores das aldeias. Por meio de ilustrações e palavras alusivas à realidade indígena, surgem conselhos que, além de iluminar consciências, podem salvar vidas.

Para o rezador da aldeia Jaguapiru e guardião da Gwyra Nhe’engatu Amba, “Lugar onde o pássaro da Boa Palavra tem Assento”, Getúlio Juca, os boatos estão não contramão da espiritualidade indígena. No final do ano ele comandou um ritual religioso com a intenção de afastar a pandemia da reserva indígena.

“Essas notícias falsas brotam de cabeças envenenadas pelo mal e acabam encontrando morada nos corações de muitas pessoas. Temos é que combater esse tipo de coisa que não acrescenta nada para a nossa cultura. Nosso Deus é bom e se preocupa com todos”, conta o rezador. Ele e a esposa, Dona Alda, que também é rezadora, já tomaram as duas doses da vacina.

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