Sao Tome
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As Pontes que Precisamos Construir

Durante o dia imersos na luta contra a precariedade, a dor e a tristeza sorrateiramente penetram dentro de nós sem que delas tenhamos plena consciência. As ocasiões para sorrir são poucas e aproveitamos todas as oportunidades para colorir dias cinzentos.

Mas na solidão das noites quentes muitas vezes somos abraçados pelo frio da dor e da tristeza, agitados por nuvens densas de dor e tristeza e do medo. A noite devia ser um espaço de encontro propício ao pensamento sobre nós e ao refúgio do corpo e da alma nos territórios da paz. Nos dias de hoje as noites não são mais um espaço de refúgio, de paz; são um campo de batalha onde tentamos superar a dor e a tristeza investindo tudo na esperança de um amanhã melhor. Verificamos no entanto, impotentes, que a esperança foi confiscada e perdeu a luta contra a dor e a tristeza e o mal.

Os amanhãs são assim amanhãs de luto e esse luto consome as forças que precisamos mobilizar para afirmar a nossa existência livre de constrangimentos que atentam contra a dignidade da nossa condição humana. Resta-nos a fé, ou a crença ainda sobrevivente que tudo pode mudar e de facto muda. Mas a fé ou a crença precisam ser sustentadas pela acção consequente. Acção consequente é acção com propósito, com uma direcção e uma finalidade compartilhada. É então que a realidade se impõe fria e cruel. Não há propósitos que façam ressuscitar a esperança, porque os propósitos que existem são pequenos, prisioneiros em ilhéus perdidos no imenso oceano da vida. Homem algum é uma ilha, e propósitos isolados, são ilhéus, dentro de uma ilha isolada …e perdida.

Estamos perdidos? Provavelmente sim. Mas podemos ainda construir pontes que liguem ilhéus, que transformem ilhas em arquipélagos, próximos do continente da humanidade. Construir pontes só pode ser um projecto comunitário que envolva comunidades próximas, situadas dos dois lados:a comunidade de partida e a comunidade de chegada.

Uma ponte liga dois pontos, tornando o trânsito possível. Perdemos a capacidade de construir pontes e mesmo quando as construímos não as usamos como meio de acesso ao outro lado, aos outros. Atravessamos a ponte de olhos vendados, sem querer ver, ouvir e contactar o outro. E assim continuamos, transitando pela vida, como ilhéus habitados somente por nossos interesses para os quais reclamamos legitimidade absoluta. Mas a pergunta permanece: podemos realizar o nosso interesse sem o outro? Mesmo que o nosso interesse seja escravizar o outro, precisamos do outro para ser objecto da nossa escravidão.

A questão é então, precisamos do outro. Precisamos reconhecer que o outro existe e que temos um interesse mútuo. Mútuo sim porque se o escravo decide por fim a sua vida, o nosso interesse em escravizá-lo fica sem objecto e sem interesse. Nada disso precisa ser tão dramático. O ser humano está construído biologicamente para se relacionar com o outro. Mais concretamente somos humanos e temos evoluído como espécie porque nos relacionamos uns com os outros. Acabando por partilhar e cooperar. Somos diferentes, temos interesses diferenciados, propósitos nem sempre convergentes, nem sempre claros. Tudo bem.

Mas aprendemos e sabemos construir pontes. Utilizemos esse saber. Ao princípio talvez nem todos transitem pela ponte, ou até inimigos se cruzem na ponte, ou até ajam de maneira violentana ponte. Mas pode acontecer que se cumprimentem, troquem umas palavras, e até se reconheçam como habitantes de uma ilha comum que precisa de continuar a existir para que todos existam. E quem sabe, quem sabe, talvez decidam construir mais pontes que respeitem os princípios e regras básicas de construção para não desabarem ao menor abalo. Pontes são feitas de variado material: ferro, aço, arreia, cimento etc, cada um com propriedades distintas. Pontes dura douras precisam de diversificado material e do saber que comanda e coordena as misturas.

Numa ponte bem construída, todos poderiam transitar livremente, relacionar-se na paz e com respeito, sobreviver em conjunto e ligar-se à outras ilhas, arquipélagos, continentes, planetas, e ao universo. Por isso é preciso recusar a fuga, não nos esconder na escuridão actual; é preciso ouvir o impulso do nosso coração lembrando-nos que estamos vivos e presentes.

Não fiquemos na expectativa, à espera. Precisamos de assumir o que é e o que ainda não é, acreditando que tudo ainda é possível. Lancemos as primeiras pedras. Se há um destino, construir pontes de entendimento é um destino humano. Mesmo nos momentos mais difíceis. Ou mais urgente e necessário quando existem momentos difíceis.

Rafael Branco

Nota: Este texto foi inspirado por um jesuíta que por ocasião da Páscoa escreveu:

Esse combate cósmico é travado definitivamente na Paixão de Jesus. E é a forma como Jesus vive a sua Paixão que mostra como a sombra irá retroceder diante da luz, de como Jesus, humilhado, agredido, insultado, é um raio de luz que atravessa e fere de morte o pecado do mundo, na forma como fala, como cuida, como consola, como perdoa”..